Monday, 21 March 2022

Rã cozida

Mete uma rã numa panela de água fria. Acende o lume brando. A rã não se aperceberá do calor que lentamente a cozerá. Se estiveres com pressa, aumenta o lume e transmite para dentro da panela uma catadupa de notícias e comentários explicando que vai ficar um calor insuportável, não há nada a fazer. Nós até queríamos que fosses uma rã feliz mas quem não deixa é esse malvado que nos vende o gás que queimamos para te aquecer.

Tuesday, 8 March 2022

Dia da mulher


Perdoai-me que assinale o dia da mulher com conversa de homens. É que passámos os últimos dois anos a louvar enfermeiras, médicas, cuidadoras, limpadoras, professoras, e outras profissionais que, não sendo todas mulheres, cumprem na sociedade essas funções de reprodução, atenção aos outros, cuidado com os mais frágeis, e manutenção da vida.

Até parecia que íamos finalmente entender que precisávamos de uma economia mais feminina, uma sociedade que recompensasse esses trabalhos de forma justa, não por uma questão moral mas por uma questão de sobrevivência. Mas, mal saídos da pandemia, levámos logo assim de chofre com os efeitos destrutivos dos mineradores, generais, exploradores de recursos e violadores de terra, invasores e heróis de sofá movidos por uma compulsão de crescimento que leva tudo à frente.
Sejam cidades para conquistar, portfolios de investimentos para aumentar, ou montanhas para pulverizar em busca de minérios valiosos, este movimento que está a transformar a humanidade num cometa de proporções planetárias parece movido a testosterona em esteróides. Já conhecíamos a conversa de balneário de Trump, o machismo de Modi, as piadas sobre violação de Duterte, os peitorais de Putin, a misoginia bacoca de Bolsonaro, o rasto de relações tóxicas de Boris. Agora, perante esta invasão dramática da Ucrânia, os heróis que nos oferecem são um presidente Americano que tenta falar como Clint Eastwood pelo meio da cara paralisada pelo botox e um presidente ucraniano que conquistou a sua popularidade a fingir que tocava piano com o pénis. Quando ele tenta evacuar todas as mulheres do país para convocar a bravura masculina da nação todas as teorias e conselhos sentimentais do Jordan Peterson parecem ganhar novo fôlego.
Não é preciso equivaler a agressão indefensável e injustificável do governo Russo â resistência dramática e corajosa dos Ucranianos e das Ucranianas, para entender que tanto a invasão como a resposta a ela são igualmente produto de uma sociedade global ainda dominada por uma cultura macha ainda mais perigosa por se sentir em crise.
Neste dia internacional da mulher gostaria de celebrar esse lado feminino da sociedade que nos irá salvar. Se primeiro as mulheres conquistaram o direito a voto e depois o direito de ocupar lugares sociais que não existiam antes, agora é urgente que consigam substituir esta cultura em que aceitamos como normal que se ganhem debates eleitorais porque se fala mais grosso do que os outros ou que é um facto natural que duas partes em conflito não possam 'perder a face'. Não se trata só de colocar mulheres em lugares de poder. Precisamos urgentemente de tornar o poder mais feminino.

Saturday, 5 March 2022

transição #3 Seixoso

 Segui este evento a partir de Londres e fiquei com a alma cheia pela força, inteligência e coragem desta gente que vive numa parte da minha terra da qual sabia muito pouco. Tal como há duas semanas atrás, quando estive no passeio pelo seixoso e na conversa na junta de Agilde, ouvi vozes locais informadas, preocupadas, engajadas, solidárias, curiosas e cheias de esperança e vontade de conhecer mais. Fala-se muito da paisagem, da água, das abelhas e do vinho. Essas são riquezas importantes a preservar e a desenvolver. Mas a grande riqueza desta terra são as pessoas que nela vivem, o conhecimento que elas têm sobre o que corre por cima e por baixo dela, a vontade que têm de saber mais para defenderem o seu futuro. Como têm muito bem dito, é importante apoiar e espalhar esse conhecimento que estes grupos tem desenvolvido em conjunto. Mas é também importante ouvir outros residentes. Saber o que pensam, porque o pensam, o que sabem e até porque poderão ser seduzidos pelos sonhos que lhes vendem quem chega para esburacar a terra como cometas em câmara lenta


https://fb.watch/hOSMUhq0_3/

Sunday, 27 February 2022

Campo de batalha

 O pessoal pode ridicularizar o contributo de Portugal para a paz conseguido pelo envio das granadas, dos walkie-talkies e do Jose Rodrigues dos Santos para a Ucrânia. O que não se pode menosprezar é o impacto internacional da guerra que travam os defensores da liberdade e da democracia nos campos mediáticos nacionais. Primeiro foi o nosso ministro dos negócios estrangeiros que foi notícia na imprensa mundial ao forçar o deputado do pcp a revelar a sua identidade de espião russo. Ontem, esses foram os 13 segundos mais vistos na bbc news, na Rússia tv, na Al Jazeera e na cnn dos EUA. Entretanto na CNN de Portugal, um campo de batalha tão crucial para os destinos da Europa como os de Donetsk Kiev e Lviv, assistimos à combinação da retórica inflamada de Sérgio Sousa Pinto e o brilhantismo acutilante de Sebastião Bugalho a dizimarem as tropas russas que se escondiam debaixo da cadeira de Antônio Filipe. Sousa Pinto em particular, que sempre se imaginou como um tribuno Ateniense, revelou que afinal pode vir a tornar-se um coração de leão capaz de motivar as tropas nos campos de batalha mais sangrentos.

Monday, 31 January 2022

A UTILIDADE DE ANDRÉ VENTURA • LUHUNA CARVALHO




 https://www.revistapunkto.com/2022/01/a-utilidade-de-andre-ventura-luhuna.html

'Pois é, pois é, ''o antifascismo necessita de entender que o seu inimigo não é Ventura, mas o modo como Ventura viabiliza a continuação do desastre em curso. Ventura é um fantoche odioso, inventado para que tudo continue igual enquanto toda a gente se concentra nele. Ventura não é algo exterior “à nossa democracia”, que vem para a fazer tremer, ele é um produto criado para que a democracia sobreviva à sua própria crise, enquanto sucedâneo de democracia, enquanto extremo-centrismo. Hoje, a maior ameaça política não é o regresso do fascismo, é o nascimento de um centro radical que cumpra o propósito anteriormente assumido pelo fascismo, legitimado precisamente por não ser fascismo.'

Sonho

uma bruxa apareceu-me esta noite e mandou esta mensagem: se derdes a maioria absoluta ao ps, daqui a 4 anos estareis a votar no psd para evitar o governo chega/ergue-te.

ergue-te seria talvez uma referência ao Cotrim, conde de Viagra. IL/Chega é a nova direita emergente. No mais, a bruxa estava certa quanto à profecia da maioria absoluta. Quanto à viragem à direita, bem, é certo que os 20 deputados da bancada da bala e da Bitcoin sao menos dos que os que o cds tinha há dez anos. É um espaço político de continuidade. Apesar da conversa das linhas azuis, a aliança entre o liberalismo elitista, a justificação meritocrática das desigualdades e a repressão dos mais pobres são aliados naturais. A história tem Pinochet e Thatcher para mostrar duas faces dessa aliança. É verdade que a direita não está assim tão forte como parece. Mas parece. E nos próximos anos, o IL e o chega vão poder, em oposição a um governo que se diz socialista sem nenhuma propensão para o ser, representar uma luta artificial contra um programa político que eles terão enorme capacidade para influenciar. É um espaço político que terá muito mais vantagens neste contexto do que teria se o PSD tivesse ficado em primeiro.

Antes de se ir embora a bruxa deixou ficar o aviso:

''Uma bancada da bala e da Bitcoin com 20 deputados, pronta a monopolizar a oposição a uma maioria pseudo-socialista. O que é que pode correr mal?''

 Ou nos pomos finos depressa ou vamo-nos arrepender de não termos dado ouvidos à bruxa. 

Sobre 'os que não querem fazer nada' do Chega e a 'meritocracia' do IL

Quem trabalha mais deve ganhar mais, quem trabalha menos, deve ganhar menos. 

Quem não trabalha nada.... deve ganhar nada? Será que isto é possível? Será que é possível alguem fazer nada? E ter nada? Eu acho difícil de conceber. 

Na verdade, as coisas que algumas pessoas fazem são mais bem remuneradas do que as coisas que outras pessoas fazem. Algumas coisas que algumas pessoas fazem até não valem dinheiro nenhum. Mas podem ter imenso valor.

E há gente que não faz nada e pode ganhar muito num golpe de sorte. E há gente que trabalha muito e gente que se esforça menos. E quanto a essas desigualdades e injustiças, a gente lê um livro de Taoismo e aceita. É assim e também não é muito grave. 

Mas nada? Não fazer nada? Tenho a impressão de que será muito raro. E menos provável será entre gente de meios mais desfavorecidos do que de origens mais privilegiadas. 

Quem ganha mais, seja porque trabalha mais, ou porque fez um bom negócio, ou porque participa de um fundo que apostou no aumento das taxas de juro ou na variação da taxa de càmbio, ou ganhou a jogar poker, poderá mais facilmente fazer nada a não ser pagar a quem faça em sua vez do que quem nada tem.

E aqueles a quem a saúde a inteligência e/ou a sorte lhe permitiram estar na situação de nunca ter de receber rendimento mínimo de inserção ou estar dependednte de serviços públicos, deveria sentir-se feliz por poder contrinuir para estes.

 E no entanto o que se ouve mais é queixas de barriga cheia. O desperdício não está nos apoios sociais aos mais pobres. Está nos caixotes do lixo e na barrigas dos ricos!

Thursday, 27 January 2022

BRAINSTORM

 



Assessor: o que é que vais levar de prenda para o programa do ricardo araújo pereira?
Cotrim: pois é, tenho de levar alguma coisa, toda a gente leva
Assessor: e se levares um unicórnio? aproveitas para falar para o pessoal das startups
Cotrim: boa ideia, mas pode dar argumentos à esquerda para dizer que acreditamos na magia dos mercados. além disso é demasiado girly.
Assessor: o que é que há-de ser?
Cotrim: tem de ser algo que dê para fazer aquela imitação do costa a mostrar o orçamento para a câmara, eu quero muito fazer isso.
Assessor: mas isso vai ficar repetitivo. o rio já fez essa piada.
Cotrim: por isso é que tens de me ajudar a encontrar algo muito original e que dê para atacar o rio para eu não parecer um palerma imitador das piadas do rio
Assessor: já sei! levas uma farpas de toureiro e dizes que é para espetar no rio para ver se o espevitas sem o matar. aproveitas e roubas os últimos votos ao cds e espetas uma espada nesses panimalistas.
Cotrim: não. tem de ser algo que eu possa tirar do bolso.
Assessor: e para ganhar o eleitorado da direita tem de ser algo bem macho, já que não podes dizer que andaste no colégio militar nem podes chamar mariquinhas ao Rio.
Cotrim: sim! macho, mas sem ser homofóbico
Assessor: já sei, levas uma caixa de viagra e dizes que o rio só tem tesão se tu te meters no governo dele
Cotrim: Oh assessor! grande ideia! és o maior! mas onde é que vamos arranjar uma caixa de viagra? aqui ninguem tem viagra porque somos todos machos e jovens
Assessor: será que se consegue algum médico que nos passe uma receita?
Cotrim: aqui só há gestores, economistas e empresários.
Assessor: ok vou ligar para a pfeizer, tenho a certeza que eles nos apoiam, afinal defendemos entregar aos privados os lucros da nossa saúde.
Cotrim: mas olha que a entrevista é logo à noite
Assessor: não te preocupes

Wednesday, 12 January 2022

Lado-a-lado, a boa actriz e o candidato da extrema direita

 

 Começaram os enfrentamentos entre os lideres de partidos concorrentes à Assembleia da República. 

Participam os partidos que conseguiram eleger representação parlamentar nas eleições de 2019. Para sabermos quantos eventos estão planeados, basta dividirmos 362880 por 10080 e temos 36 frente-a-frentes de 25 minutos cada. Falta só multiplicar este número por um número ainda indeterminado de horas de debates entre comentadores televisivos e mais alguns milhares (milhões?) de linhas de postagens e comentários nas redes sociais.

Há quem lhes chame debates, mas cada participante tem 12 minutos para falar, e outro tanto para olhar para quem fala, por isso há muito poucas oportunidades para diálogo. Felizmente as estações de televisão possuem recursos tecnológicos que lhes permitem dividir a tela em duas. Assim podemos ver a cabeça que fala lado a lado com as reações da cabeça que ouve. A cabeça que fala tem de o fazer muito depressa para dizer tudo o que tinha preparado para dizer. A cabeça que ouve e vê  tem de se transformar numa máquina de emojis. 

O ecrã dividido em dois permite que o espetador possa ver as expressões, interjeições e rabugices de quem momentaneamente não tem a prerrogativa da palavra. Nós também não temos mas podemos sempre escrever um tweet. O candidato pode interromper se lhe apetecer, porque a moderadora não manda nada e cada um faz o que lhe apetece, já chega de politicamente correto. 

Nos 25 minutos em que a secretária geral do Bloco de Esquerda (BE) e o presidente do Chega! - Ponto de Exclamação (ChPE) estiveram lado a lado, muita gente pôde admirar a agressão passiva de Martins e a sua tenaz resistência à tentação de gesticular ou gritar contra as frases absurdas e provocatórias do 'candidato de extrema direita' enquanto este as proferia.  Outras pessoas puderam identificar-se com a irritação, as constantes interjeições, os risos sarcásticos e as expressões de indignação de Ventura a cada fala da 'excelente atriz'. Os seus comentários constantes enquanto ocupava a metade supostamente silenciosa dos nossos ecrãs funcionavam como os banners ou tickers que desenrolam títulos de um noticiário, citações de uma entrevista ou números de telefone de um programa de entretenimento interativo. Já as caretas com que reagia a cada frase da oponente eram como emojis que flutuam no ecran durante alguns diretos do facebook. 

Na metade do ecrã que tinha o uso legítimo da palavra, o máximo de interatividade que este formato permitiu foi saber como um candidato qualifica a outra e vice-versa. André optou pela multiplicação de qualificativos (mentirosa, boa actriz, partido irritante), que Catarina ignorou. Catarina ficou-se por posicionar o partido ChPE como de extrema direita, o que fez André dizer-se ofendido quando falou, mas mostrar-se saitsfeito enquanto ouvia. O líder do ChPE repetiu os seus bordões das presidenciais - 'metade a trabalhar, metade que não quer fazer nada', 'os coitadinhos', e até escolheu para cartaz mais uma print com uma foto de uma pessoa negra, repetindo o assobio para cães que tinha soprado no debate das presidenciais com Marcelo. Ou a fonte de ideias secou, ou o ChPE acha que os seus apoiantes não são capazes de memorizar mais do que 2 ou 3 frases. Já a líder do Bloco de Esquerda tentou explicar com números e histórias comoventes que a metade que não quer fazer nada e explora quem trabalha nem é metade - é uma pequeníssima minoria - nem é contituída por pobres com benefícios socias - mas sim por ricos com isenções fiscais. Mas nada do que Catarina Martins disse cabe num meme ou pode ser facilmente articulado num tweet. 

Muitos de nós vimos o frente-a-frente-lado-a-lado entre Ventura e Martins através dos nossos computadores e telefones. Na página de facebook da Sic Notícias, onde foi transmitido em direto, o vídeo tem 64 mil visualizações, 2 mil comentários e mais de mil reações usando um dos 7 emojis disponíveis. Abaixo deste, um vídeo em que a comentadora Angela decide quem ganhou o debate conta 42 mil visualizações, mas é possível que muitos como eu nem sintam necessidade de o ver já que o título 'VENCEU ANDRÉ VENTURA.' retira todo os suspense.

O debate pós-debate que continua nas redes sociais é também feito num formato comprimido por uma estrutura de mediação rígida. O poder dos media sociais é tanto mais forte quanto se apresenta como se fosse uma rede horizontal e transparente, que permite a toda a gente dizer o que quer em qualquer lugar. E não é preciso ver a série Succession para se entender como as novas lógicas dos media digitais se articulam e cristalizam nas lojas de poder dos chamados media tradicionais. Assim o espaço mediático onde interagimos com o debate político é ao mesmo tempo radicalmente novo e é-o para que tudo fique na mesma.

Os primeiros debates eleitorais da democracia portuguesa já tinham Soares, Sá Carneiro, Cunhal, e Freitas lado a lado em ecrãs divididos e já eles percebiam bem a importância de praticar os seus emoticons faciais. Também percebiam bem como era importante repetir frases que pudessem ser utilizadas em discussões de ruas , gritos de ordem e cartazes. Já então eram os memes e a voz confiante que davam as 'vitóras' nos debates, mais do que as argumentações sólidas e factuais, sendo que 'ganhar o debate' significava sempre ter vozes ou penas com espaço nos media atribuindo a vitória com a certeza e confiança de um VAR a decidir um fora do jogo, só que sem as linhas. O primeiro lado-a-a-lado foi o famoso frente-a-frente de Novembro de 1975 entre Soares e Cunhal (link). José Carlos Megre apresentou o debate dizendo que o 'programa não tem limite de tempo mas também não poderemos estar aqui muito mais do que... vá lá, duas horas'. O programa durou mais de 3 horas e meia, grande parte das quais com as duas figuras postas lado a lado no ecrã a preto e branco. E foi logo aí que o tempo em que um debatente olha para o oponente enquanto ele fala começou a ser aproveitado para passar uma mensagem política.  Era nesse espaço de linguagem corporal, interjeições e comentário em rolagem que Cunhal repetia 'olhe que não, sr doutor', e Soares se recostava na cadeira encenando um olhar superior de quem estava a ver para além dos apelos a uma aliança feitos por Cuinhal. O debate não influenciou uma eleição mas sim um golpe militar que ocorreu 3 semanas depois. E para quem cresceu a discutir política nos anos 70 e 80, essses debates televisivos continuaram a fornecer tiradas-memes para debates acesos e por vezes violentos. 

Ventura emergiu no ambiente comunicativo de hoje no qual os debates de 25 minutos também se cristalizaram como modelo. As suas caracteristicas de debatente são vantagens evolutivas de facto, tal como os conservadores ingleses são um produto evolutivo das sociedades de debate de Oxford. É por isso que nas presidenciais Marisa foi criticada por ter perdido o controle e ter partido para o ataque e para a gritaria e agora Catarina Martins é atacada por ter feito passar uma mensagem coerente e racional sem responder às provocações de Ventura e por ter citado o papa 2 vezes. A ideia que temos do que é um debate político é marcada pela história do debate político mas também pelos milhares de simulacros de debate político que todos os dias ocorrem nas televisões a propósito de quase todos os temas. Em parte essa profusão é resultado da dimensão das audiências nacionais que encoraja todos os canais a produzirem programas com cabeças falantes, que são mais baratos. Mas a forma específica que assumem estas pseudo-discussões que enchem os horarios televisivos, com uma forte componente de rivalidade futebolística e discussões regadas a testosterona, torna o campo minado e a aconselha a que se procure outros lugares mais sãos para a luta política.  



 

Tuesday, 11 January 2022

Aos papeis e a fazer correr muita tinta

No dia de Reis, estiveram frente a frente na CNN Portugal duas estrelas. De um lado A.ventura, a agora decadente estrela dos debates Presidenciais 21. Do outro Rui Tavares, a estrela em ascendência dos debates S.bento 22. Os dois homens-estrelas têm em comum serem lideres de partidos que são quase pseudónimos de si próprios, sendo ambos partidos que aparecem nos boletins de voto escritos em letras maiúsculas. Para além destas 3 coincidências, o homem-CHEGA! e o homem-LIVRE não poderiam ser mais diferentes. O debate teve muitos 'pontos altos', quase todos da responsabilidade de Tavares, mas o comentador-de-cabelo-lambido da CNN destacou aquele em que A.ventura mostrou uma folha de papel de fotocópia em branco para ilustrar o trabalho legislativo do LIVRE no combate à corrupção . ‘Um grande momento de televisão’ disse Rui Calafate antes de se recostar na cadeira com ar de satisfação pelo momento de televisão que ele próprio tinha acabado de protagonizar. Este especialista em comunicação, corrupção, e futebol não ficou tão impressionado com a forma como o outro Rui respondeu à fotocópia em branco de André. Com uma mão, o homem-LIVRE mostrou as suas próprias fotocópias, imprimidas e agrafadas, contendo todo o seu trabalho legislativo de combate à corrupção no parlamento europeu. Com a outra mão mostrou todo o programa do CHEGA! imprimido em menos páginas. Não sabemos se imprimiu ambos com a mesma fonte e espaçamento mas isso não interessa nada. Foi um grande momento televisivo, embora não tão grande quanto a folha em branco do Ventura, na opinião de quem é pago para dar opinião. Desperdício de tinta, papel, e agrafos, então. Antes de ser homem-CHEGA!, o homem-CHEGA! tinha sido também ele comentador especialista em comunicação, corrupção, e futebol. Nessa capacidade protagonizou em 2017 um outro grande momento televisivo, como nos conta Rogério Casanova numa das suas brilhantes crónicas no DN. A.ventura levou para o estúdio da CMTV, uma caixa de fotocópias supostamente contendo mais de mil folhas imprimidas a cores. Para quê? A razão para tanta tinta gasta pode ser resumida como ‘vocês dizem que eu falo do sporting, mas quem diz é quem é, e tenho aqui uma caixa com mais de mil notícias imprimidas a cores em que o Sporting fala do Benfica’. E puxa da caixa de debaixo para cima da mesa, tira a tampa, e anunciando que poderia tirar qualquer folha à sorte, querem ver?, saca de uma folha de papel. Vira-a dos dois lados… Nada. ‘Bem esta não, vou tirar outra’. Também nada. Quando, à quarta ou quinta tentativa lá conseguiu tirar uma notícia, já estavam os outro homens todos a rir. Mas o Ventura não se descompôs. Sorriu também e continuou a ler os títulos das notícias que saíam da caixa como um homem com uma missão a cumprir. ‘Um grande momento de televisão’, ironiza Casanova no seu artigo, publicado meses antes de ver como o homem-CHEGA! iria aprender a usar a folha em branco sem que se rissem dele. Mas nenhuma fotocópia foi tão impactante como a que A.ventura mostrou a Marcelo, contendo uma foto de Marcelo junto de uma família de pessoas negras, acompanhada da legenda verbal: ‘Marcelo confraterniza com bandidos enquanto polícias sofrem numa esquadra ali ao lado’. Este terá sido um grande momento televisivo. Segundo a perspetiva do especialista da CNN talvez o momento alto do debate. Segundo a perspetiva dos tribunais e das pessoas com um mínimo de decência foi um dos momentos mais baixos da história do debate político num país em que ainda há pouco tempo os debates podiam acabar com a o moderador a dar a notícia de uma bomba na sede de um dos partidos. Neste tempo de tablets e kindles, os candidatos não conseguem atuar sem papeis. Nesta série de debates, quase todos espalham papéis pela mesa e muitos mostraram fotos, títulos de noticias e gráficos imprimidos a cores em folhas A4. Até a líder do P-A-N desperdiça carbono em papel e tinta de impressão para mostrar gráficos que ninguém consegue ler. O presidente do CDS por seu lado mostrou uma foto do Cotrim de Figueiredo a assistir a uma tourada, e as suas notas escritas a marcador preto de bico grosso parecem cábulas mal amanhadas. Só Catarina Martins, que não tira notas, nem tira os olhos dos opositores, tem sempre a mesa vazia de papelada para alem de um livro supostamente com o programa do se partido que acaricia de vez em quando com ar de aluna bem comportada. Mostrar programas e comparar tamanhos é um dos usos que os candidatos a São Bento têm feito da tecnologia inventada por Gutemberg, mas muitos de nós identificam-se mais com quem deixou o trabalho de casa para a última e não teve tempo de o imprimir e encadernar. A boa aluna presunçosa será provavelmente a candidata mais competente mas o calaceiro faz-nos sentir melhor em relação às nossas limitações. Nestes debates comprimidos em que os candidatos tentam aproveitar os escassos minutos que têm para passarem mensagens superficiais, o estilo Bob Dylan no videoclip de Subterranean Homesick Blues tem dado jeito. Mas, já que ninguém quer usar outras formas mais criativas de expressão não oral, o truque da folha em branco foi até agora o momento alto dos debates, tanto na redução da pegada ecológica como na impressão causada em analistas profissionais.