Tuesday, 8 March 2022

Dia da mulher


Perdoai-me que assinale o dia da mulher com conversa de homens. É que passámos os últimos dois anos a louvar enfermeiras, médicas, cuidadoras, limpadoras, professoras, e outras profissionais que, não sendo todas mulheres, cumprem na sociedade essas funções de reprodução, atenção aos outros, cuidado com os mais frágeis, e manutenção da vida.

Até parecia que íamos finalmente entender que precisávamos de uma economia mais feminina, uma sociedade que recompensasse esses trabalhos de forma justa, não por uma questão moral mas por uma questão de sobrevivência. Mas, mal saídos da pandemia, levámos logo assim de chofre com os efeitos destrutivos dos mineradores, generais, exploradores de recursos e violadores de terra, invasores e heróis de sofá movidos por uma compulsão de crescimento que leva tudo à frente.
Sejam cidades para conquistar, portfolios de investimentos para aumentar, ou montanhas para pulverizar em busca de minérios valiosos, este movimento que está a transformar a humanidade num cometa de proporções planetárias parece movido a testosterona em esteróides. Já conhecíamos a conversa de balneário de Trump, o machismo de Modi, as piadas sobre violação de Duterte, os peitorais de Putin, a misoginia bacoca de Bolsonaro, o rasto de relações tóxicas de Boris. Agora, perante esta invasão dramática da Ucrânia, os heróis que nos oferecem são um presidente Americano que tenta falar como Clint Eastwood pelo meio da cara paralisada pelo botox e um presidente ucraniano que conquistou a sua popularidade a fingir que tocava piano com o pénis. Quando ele tenta evacuar todas as mulheres do país para convocar a bravura masculina da nação todas as teorias e conselhos sentimentais do Jordan Peterson parecem ganhar novo fôlego.
Não é preciso equivaler a agressão indefensável e injustificável do governo Russo â resistência dramática e corajosa dos Ucranianos e das Ucranianas, para entender que tanto a invasão como a resposta a ela são igualmente produto de uma sociedade global ainda dominada por uma cultura macha ainda mais perigosa por se sentir em crise.
Neste dia internacional da mulher gostaria de celebrar esse lado feminino da sociedade que nos irá salvar. Se primeiro as mulheres conquistaram o direito a voto e depois o direito de ocupar lugares sociais que não existiam antes, agora é urgente que consigam substituir esta cultura em que aceitamos como normal que se ganhem debates eleitorais porque se fala mais grosso do que os outros ou que é um facto natural que duas partes em conflito não possam 'perder a face'. Não se trata só de colocar mulheres em lugares de poder. Precisamos urgentemente de tornar o poder mais feminino.

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