Um dia depois do governo regional da Catalunha declarar independência unilateralmente li o artigo de Lidia Falcón no El País, EL nacionalismo siempre es de derechas. Talvez o título deste artigo e o cerne do seu argumento sejam demasiado simplistas mas talvez a sua leitura seja útil como contraponto ao simplismo heroico da bandeira nacional catalã desfraldada contra o Rei. Li-o como um alerta contra o "nacionalismo banal", para usar a expressão de Michael Billig, que tende a cobrir diferenças de classe e a permitir que elites locais expandam os seus planos de acumulação e opressão.
Vejo o nacionalismo, como ideia que atravessa todos os sectores ideológicos, sobreviver em parte pela glorificação dos movimentos anti-coloniais, vistos como forças libertadoras. Mas há dois pontos que podem questionar essa glorificação: 1) Há histórias de movimentos nacionalistas anti-coloniais muito diferentes. Desde o Haiti (talvez caso único de um movimento independentista liderado por escravos) até aos exemplos extremos dos EUA e Brasil (nações fundadas na luta contra os limites à acumulação de elites locais impostas pela metrópole), raramente os nacionalismos anti-coloniais foram liderados pelos verdadeiros oprimidos pelo império. 2) mesmo nos casos em que nos parece evidente e justa a luta pela autodeterminação nacional, como nos casos das ex-colónias de Portugal, (oficialmente) lusófonas, pode ser que seja mais complicado do que o que parece. Nós crescemos com as bandeiras de Angola e Moçambique como símbolo da vitória dos povos oprimidos pela ditadura portuguesa. Mas a naturalização da ideia de nação talvez nos tenha impedido de entender a forma que tomou a luta contra o império (e as novas nações africanas elas mesmas) como mais um produto dos impérios que lutaram por esses territórios. Neste caso, tanto os Europeus como os da guerra fria. Talvez se as lutas anti-coloniais pudessem escapar ao nacionalismo metodológico, às armadilhas da naturalização do Estado-naçnao como única forma possível de solidariedade territorial importada, os últimos 40 anos pudessem ter sido diferentes. Claro que a história do What if, é sempre um exercício indulgente que pode não levar a lado nenhum. Mas neste caso pode pelo menos fazer-nos pensar se os cortes dos laços de solidariedade económica e burocrática de uma região do reino possa por si só contribuir para um movimento republicano que se estenda pela península. E se a independência da Catalunha pode contribuir para uma diminuição da desigualdade dentro da região e para além dela. O artigo fala de versões extremas de nacionalismo étnico dentro do movimentos catalão. E todos sabemos que grande parte do combustível deste movimento vem de uma retórica muito semelhante à dos mercadores Norte Americanos e prospectores de ouro Brasileiros que não queriam pagar impostos para a metrópole. Eu pergunto-me também o que este movimento nacionalista irá fazer às relações já difíceis com comunidades imigrantes na Catalunha, em especial depois da crise do subprime ter destruído os sonhos de habitação própria que serviu para a integração de muitos. Ainda não li muito sobre a posição da Ada Colau, mas talvez ela esteja a pensar nisso também. Os nacionalismos dos povos não oprimidos, raramente resolvem o que dizem atacar. Senão o Partido Independentista do Reino Unido, que conseguiu fazer o país sair da UE, poderia dar-nos esperança numa nova solidariedade Europeia. Infelizmente, parece que está a alimentar velhas divisões. Como seria de esperar.