Tuesday, 7 June 2011

O Bloco e a eleição dos deputados

O José Soeiro, terceiro da lista do Bloco de Esquerda pelo Porto, não foi eleito. Será substituído por algum "jovem responsável" do outro lado do hemiciclo. Esta é uma das consequências mais negativas destas eleições legislativas. Quando a taxa de abstenção sobe apesar do descontentamento geral, a estratégia do Bloco de Esquerda terá de ser julgada. Considero que o Bloco falhou rotundamente sendo co-responsável pelo enorme equivoco que foi esta campanha. O facto de muitos portugueses (incluindo votantes do Bloco) não conhecerem o trabalho do Zé, um dos melhores deputados que vi intervir no parlamento, é apenas um sintoma desse fracasso. Divido os erros do Bloco em 4 pontos: 1) Rendição à personalização das campanhas. Francisco Louçã ocupou quase todo o espaço que o BE teve. Bem sei que parte da responsabilidade desse facto é dos media que sempre procuram os líderes e não os conteúdos. Por exemplo, no comício de encerramento no Coliseu do Porto, o discurso do Zé Soeiro foi incomparavelmente mais interessante e motivador do que o do Louçã; no entanto, os jornalistas falavam por cima do primeiro e passaram em directo partes do segundo. Mas o Bloco sempre se caracterizou pela imaginação com que quebrou barreiras para chegar aos media. Eu ouço o Miguel Portas todas as 6as na antena1. e vejo as intervenções dos deputados do Bloco no youtube. E acompanho as declarações do Boaventura Sousa Santos. E conheço o trabalho do João Teixeira Lopes e de outros bloquistas. Mas na TV e nos jornais só aparece o Louçã. Os novos media, como outras redes sociais não foram bem aproveitados 2) A excessiva personalização da campanha permitiu que se esquecesse que estávamos a votar deputados e não primeiros ministros. Quando Louçã na noite das eleições disse que tinha dado a Pedro Passos Coelha os parabéns pela SUA vitória percebeu-se que ele tinha sucumbido a esse equívoco. Estas eleições não são pessoais. Ele deveria ter dado os parabéns a todos os deputados eleitos, e aos partidos que subiram, à CDU e ao PP e, claro, ao líder do PSD por ter sido o partido mais votado e provável primeiro ministro. 3) A troika. Ou as troikas. A recusa de reunião sem uma reflexão colectiva foi um erro crasso. Uma oportunidade perdida e acima de tudo o entregar do ouro ao bandido. Se a troika queria influenciar as eleições portuguesas, então o Bloco facilitou-lhe a vida. Deveria ter dito e redito que a "ajuda" não é externa, porque nós fazemos parte da UE e financiamos também o FMI. Que quando se ouve falar Miguel Portas (ou Ana Gomes) sentimos que fazemos parte da UE. Enquanto que quando ouvimos Durão Barroso, ou os "troikocratas", ou quando ouvíamos DSK, ficamos sempre a pensar que eles são de outro mundo. E que para alem de não ser externa, também não é realmente ajuda. Porque quem ajuda não prejudica a democracia, tentando impor um programa de governo e violações da constituição a 3 semanas das eleições. E também acho que a moção de censura do Bloco foi pouco e mal defendida. É que se tivesse sido aprovada teria permitido eleições antes da "ajuda externa". Agora colocar estas eleições como um plebiscito ao MoU quando há margem de manobra e necessidade de o renegociar e repensar foi, além de pouco fundamentado, muito arriscado. Significaria que a troika agora tem 90% do parlamento, o que não faz qualquer sentido... 4) O Francisco Louçã teve o mérito de unir uns pequenos grupos com pouca expressão eleitoral em torno do PSR que tinha estado várias vezes perto de o eleger como deputado por Lisboa. Se pensarmos nesses tempos, 4-5% e 8 deputados é ainda um bom resultado. Os 16 deputados de 2009 foram admiráveis. Mas considero que teria sido de todo o interesse para o Bloco lembrar em todas as oportunidades que havia 16 partidos candidatos e que todos deveriam ser ouvidos. Isto poderia combater o afunilamento das opções que sente quem vê telejornais e lê os títulos dos jornais, mostrar que pelo facto de ter ganho um lugar nos debates não se esquecia de quando não tinha esse espaço e com isso talvez contribuir para conter o crescimento da abstenção. Se eu fosse líder do Bloco teria tentdo enviar outras pessoas para os debates e teria sempre falado dos partidos mais pequenos que não têm e deviam ter voz. Depois há outras questões de mobilização tanto durante a campanha como no próprio dia das eleições (ou dias, se pensarmos nos emigrantes e deslocados) que podem e devem ser melhoradas pela criação de redes mais fortes no terreno. Para o futuro parece-me que o Bloco terá de tentar manter a muita gente boa que tem, ser uma plataforma para os fazer falar para o país, deixar ir à sua vida todos os pequenos grupos fechados que queiram promover rupturas e tornar o bloco refém e pensar na sua refundação programática. Em minha opinião é claramente a questão ecologica o que falta na política portuguesa e que poderia ser integrada através do Bloco de Esquerda. Uma ecologia social de esquerda. Não uma ecologia dos animais e das catastrofes futuras, mas uma ecologia da justiça ambiental e da ligação entre a economia e os recursos. Três exemplos: 1- a capacidade de promover a discussão do modelo económico pelos limites ecológicos. A problematização do crescimento baseado no consumo, do cálculo do PIB baseado na soma de parcelas que se anulam à escala ecológica e, portanto da ideia de que para distribuir é preciso fazer crescer o PIB... 2- associar a ideia de desperdício ao crescimento do lixo. Quando se fala em cortar despesas supérfulas, avançando contra o estado social, o que dizer dos gastos supérfulos de materiais e recursos que depois podem ser e muitas vezes são aproveitados pelos mais pobres. Neste caso o líder do Bloco teve o mérito de lançar esta questão no capítulo da habitação mas há muito por onde andar 3 -a questão da justiça ambiental, na distribuição dos bens e dos males da produção. Porque é que os aterros sanitários ficam sempre nos concelhos mais pobres? Porque é que Sócrates se lançou como político numa imposição de poluição sobre populações mais desfavorecidas?
Na base, as ideias que o José Soeiro tem tentado transmitir terão de estar sempre presentes: existem mundos que podem ser dentro da aparente inevitabilidade das coisas, é preciso estarmos sempre a aprender com a vida e juntar todos aqueles que sofrem com o sofrimento dos outros e procuram alegria para transformar a realidade.
Agora, como diz o Boaventura d Sousa Santos:
"Não obstante o momento apinhado de urgências que vivemos, merece a pena reflectir dentro do momento como se ele tivesse janelas e ousar fazer propostas para além das imposições e contra elas."