Tuesday, 18 April 2023

O poder mágico das estátuas

 

Diz que figuras do passado não devem ser julgadas por critérios do presente. Mas, e quem lhes ergue estátuas? E quem as mantém? E quem as restaura? E quem lhes grava laudos em placas de bronze? E quem as defende? E os guias turísticos que as louvam? E quem acha que devemos ter os mesmos heróis para sempre? Com que critérios de que tempo devem ser julgados?

 

O movimento antirracista impulsionado pelas imagens do brutal assassinato de George Floyd em Minneapolis resultou numa série de protestos públicos por todo o mundo. Em alguns desses eventos houve ataques a estátuas representando figuras associadas com esclavagismo, racismo e colonialismo – que, é sempre bom lembrar, são 3 lados do mesmo triângulo. A estátua de Edward Colston foi derrubada e deitada ao rio em Bristol, a estátua de Churchil em Londres e a de António Vieira em Lisboa foram pintadas com grafitos, e várias estátuas de Cristóvão Colombo e de figuras da confederação nos Estados Unidos foram derrubadas, decapitadas ou simplesmente pintadas. Passados uns dias, pinturas foram limpas, estátuas foram recuperadas e retiradas do espaço público, e debates mais ou menos antigos em tornos do significado e futuro destes monumentos foram reavivados.

 

Nas respostas mais ou menos irrefletidas, quer dos apoiantes que acham que as estátuas são a base de um castelo de cartas que precisa ser derrubado, quer dos que se dizem indignadas com o vandalismo deslocado e sem sentido de quem quer reescrever a história de forma ilegítima, quer ainda daqueles que até concordam com os princípios dos manifestantes mas se querem dissociar dos métodos usados, há muitas pistas para entender o problema das estátuas.

 

Infelizmente o tom de muitas destas reações tende a afastar-nos da possibilidade de pensar este problema e as suas possíveis soluções. As únicas conclusões possíveis destas posições seriam: ou não há problema nenhum, ou o problema está com os vândalos que precisam ser disciplinados e as estátuas protegidas. Tentemos então por um momento afastar-nos por uns momentos das vozes mais estridentes do nosso espaço público e olhar para o debate com alguma distância para pensar um pouco em como estes eventos e as reações que suscitaram podem ajudar-nos a entender o problema das estátuas.

 

A primeira coisa que se percebe em muitas reações é o poder mágico das estátuas. Quando alguém diz que os manifestantes atacaram figuras do passado percebemos como um objeto de pedra ou bronze criado por um ou mais artistas, erigido e colocado num espaço público e modificado quotidianamente por pássaros, ventos, líquenes e funcionários da câmara se transforma aos olhos do público na pessoa que representa. Se pintar uma estátua ou mesmo arrancá-la do plinto e deita-la ao rio é violência, quase parece ser violência contra uma pessoa. Podemos dizer, pedindo emprestado o termo a Pierre Bourdieu, que é uma forma de violência simbólica. Mas quem a comete fá-lo contra a violência simbólica que a própria estatua e o seu contexto exercem sobre o espaço publico onde está situada. Se há vítimas humanas dessa forma de violência podemos dizer que são mais os artistas que a esculpiram, e todas as forças políticas, históricas e educativas que promoveram a imagem específica que aquela estátua tentou imortalizar do que a vida e a obra do ser mortal que a estátua promete falsamente imortalizar.

 

A estatua do padre António vieira no largo da Misericórdia em lisboa é um exemplo interessante. Se o ataque à estátua fosse um ataque ao padre-escritor faria sentido fazer uma critica literária ou política dos seus textos e concluir a pena de vandalismo injusta ou ignorante. Mas se o gesto é contra a própria representação do pare não como um produtor de textos e argumentos mas como um protetor de criancinhas indefesas e inocentemente gratas pelo paternalismo colonial do evangelizador então o argumento é outro. È um argumento sobre história, memória, espaço urbano. O que a estátua erigida em 2017 imortaliza, não é o padre - a sua imortalidade depende exclusivamente do seu Deus - mas sim o discurso civilizador, de que a cidade de lisboa foi capital metropolitana durante os séculos 19 e 20, e que continua a organizar o espaço urbano do século 21. Se a estátua tivesse sido erguida em 1968 quando o presidente do conselho dizia continuar a acreditar na 'superioridade moral da nossa civilização sobre raças menos evoluídas' (arquivos da RTP) talvez fosse caso para pensar como re-contextualizar. Mas a estátua foi erguida em 2017! Neste tempo, a geografia da capital é uma imagem fractal da geografia do império. Os mapas residenciais e culturais da cidade são imagens de um poder centralizado e civilizador das periferias violentas e ignorantes de que as instituições de caridade são a mão pretensamente benévola. O afã de imortalizar essa imagem de superioridade moral sobre os necessitados outros é o alvo a atingir por estas ações. Não o padre.