Tuesday, 9 February 2016

A liquidez política do capital mediático

Nos últimos tempos tenho ouvido de várias vozes (próximas e distantes, escritas, vivas e transmitidas) convictas comparações entre Donald Trump e Bernie Sanders. Estas comparações, baseadas no facto de que ambos atacam os media, o sistema de financiamento das campanhas e... pouco mais, servem para nivelar todas as posições políticas que afirmam perspectivas de mudança. De repente mete-se Sanders e Trump num saco e sem darmos por isso, lá aparecem Corbyn, o Bloco de Esquerda, a extrema direita Europeia e até o ISIS. Como se todas as propostas de transformação política e social fossem comparáveis só pelo facto de proporem mudanças. Gostaria de deixar meia dúzia de notas para entender esta comparação e combater os seus motivos.

1. Parece-me que comparar Sanders a Trump só serve um propósito: defender um certo establishment que se tenta afirmar como "centro moderado" apelidando de radicais todas as formas de mudança propostas, ainda que, como deveria ser normal em política, defendam opções contrárias. (O mesmo acontece por exemplo quando se põe no mesmo plano o anti-europeísmo da direita Britânica e o Anti-Eurpeísmo do Varoufakis ou do PCP. Uma quer ver-se livre da regulação da finança, das leis laborais ,e da legislação ambiental que vem da Europa. Os outros atacam a Europa como instrumento de imposição do capitalismo que promove a degradação das leis laborais e a reprodução do poder dos credores. Ou seja, exactamente o oposto. O facto de que ambos afrontam a instituição Europeia não os faz comparáveis, a não ser aos olhos de quem controla as instituições europeias.) 

2. Não desqualifico Trump, nem os milhões de Americanos que o apoiam, como malucos. Ouvi na semana passada um episódio (http://tal.fm/578/1) do This American Life, um excelente programa de rádio, que ajuda a entender algumas das razões dos Trumpistas. Na minha opinião, as propostas de Trump são erradas e perigosas, mas devem ser combatidas e discutidas politicamente com os muitos que as apoiam.

3. Convém não esquecer que Trump também é o establishment e representa muito daquilo que Sanders ataca. Trump pertence aos 1%, aliás, aos 0,1% mais ricos dos EUA e do mundo.  Sanders, pelo contrário, tem feito a sua campanha contra os perigos da concentração de riqueza e a desigualdade cavalgante.

4. Em termos de financiamento das campanhas a comparação é ainda mais difícil de entender: Trump, tal como os outros candidatos é financiado por milionários (principalmente ele próprio); Sanders é financiado principalmente por grassroots movements. O que isso significa em termos de independência em relação a interesses económicos parece-me evidente.

5. Por outro lado, podemos dizer que Sanders é um político de carreira como todos os outros candidatos e que Trump é o único que é realmente diferente. Comparar Sanders a Clinton é tão razoável como compara-lo a Trump.

6. podemos fazer mil comparações, a questão em política é sempre, Por que razão as fazemos? o que pretendemos defender? Por exemplo, na semana passada ouvi, num outro programa de rádio que sigo regularmente, a directora do Jornal de Negócios comparar Trump ao Bloco de Esquerda. O populismo, dizia ela. Talvez seja das comparações menos fundamentadas que ouvi (mas vindo de quem vem não me admira). Talvez seja possível fazê-la. No entanto, se é para fazer uma comparação com a política portuguesa, eu proponho outra: entre Trump e Marcelo Rebelo de Sousa. Ambos afirmam a sua independência em relação aos partidos de que são membros através de uma notoriedade alcançada em programas de televisão de sucesso. Em ambos os casos o impacto social e político que exerceram através dos media foi enorme, de alguma forma contribuindo para criar as condições políticas do seu próprio sucesso. Do caso de Marcelo poderei falar noutra altura. No de Trump parece-me particularmente evidente que tudo aquilo que o The Aprentice representa é exactamente aquilo que Sanders ataca - a idea de que o sucesso individual só se consegue em competição com (e à custa do falhanço dos) outros; a ideia de que o poder arbitrário do patrão promove a superação e a produtividade económica; a ideia de que uma sociedade se pode basear na contínua exploração dos sonhos fúteis de consumo que reproduz uma força de trabalho atomizada, subserviente e amoral pronta para ser explorada até ao tutano por quem detém o poder económico. Enfim, é só ver um episódio do Aprentice. Felizmente, o nosso presidente - vedeta de TV não promove o ódio inter-racial como Trump, ou como as muitas vedetas de TV que ocupam o poder no Brasil. Mas a crescente liquidez política do capital mediático parece-me uma tendência a registar com preocupação.