Friday, 6 November 2009

A propósito das uniões homossexuais (e das hierarquias monossexuais e assexuadas)


“Some people are gay. Get over it!” é o slogan de uma campanha anti- homofóbica levada a cabo nos espaços publicitários das ruas britânicas pela organização Stonewall. O que ela tem de brilhante é a simplicidade, mas também a força e, acima de tudo, a não confrontação. Eu não tenho de te convencer a aceitar-me nem tenho de me defender do teu impulso para tornar toda a gente igual a ti. Eu simplesmente existo, sou assim e, como estamos a falar de escolhas, opções ou fatalidades íntimas, tu tens de aprender a melhor forma de viver no mesmo mundo que eu. Este é o grande desafio da urbanidade.
Desde o fim do ano de 2008, metade da população mundial vive em cidades, de acordo com as Nações Unidas. Na Europa esse número era, em 2005, 72%, enquanto nas Américas atingia os 80%. Metade da população mundial partilha hoje em média um km2 com outras 900 pessoas. Esta concentração aumenta à custa de pessoas que vêm dos mais variados lugares e gera naturalmente imprevisíveis combinações de possibilidades. Este fenómeno requer do ser humano uma serie de novas competências civilizacionais, a mais importante e difícil das quais é a capacidade de viver lado a lado com a diferença. Apesar da guetização e da auto segregação constituirem uma tendência seguida por muitos grupos definidos em termos culturais e económicos, as experiências urbanas mais ricas e sustentáveis acontecem quando se encontram soluções para a convivência entre pessoas que pensam, falam, escrevem, se comportam, trabalham ou consomem de formas muito diversas.
Há muitos exemplos históricos de coexistência de diversidade humana, mas quase sempre sob a forma de exploração ou dominação. São normalmente hierarquizados os arranjos que se fazem entre povos de raças, etnias ou hábitos diferentes, muitas vezes culminando simplesmente em limpeza étnica ou a completa submissão. As diferentes formas que assumiu a escravidão e o genocídio, desde os Gregos ate às potências ultramarinas europeias, são conhecidos exemplos deste extremo. A emigração contemporânea e a sua articulação com as relações de dominação que fizeram substituir o escravo pelo trabalhador assalariado, alimentam a mais típica daquelas formas de arranjo desigual da diversidade. O engenheiro ucraniano que vem para Portugal viver é mantido a trabalhar como operário por um sistema que mascara dominação com aceitação. E nem sequer estamos a falar de diferenças raciais ou religiosas muito marcadas.
A capacidade de partilhar o transporte publico, a loja ou o elevador com alguém muito diferente de nós, sem necessidade de estabelecer uma relação hierárquica, representa um avanço civilizacional que ainda estamos a experimentar. Talvez o estado mais maduro dessa evolução aconteça quando formos capazes de assumir e debater abertamente essas diferenças. Ainda mais complicado do que viver com a diferença é ser capaz de falar com o diferente sobre a diferença, sem tentar convencê-lo, à procura de aprender a entender sem temer ser convencido. No caso da homossexualidade isso é particularmente difícil. Vivemos em sociedades que se constroem sobre a repressão dos desejos sexuais, como Freud e Foucault diferentemente argumentaram. A variedade de configuraçães aparece assim como ameaça à formatação colectiva da intimidade constitutiva da civilização. Deste modo, heterossexuais, homossexuais, bissexuais e polissexuais (biográficos ou simultâneos), unissexuais, virgens, polígamos (com parceiros hierarquizados ou não) acabam por ter de se alojar em configurações cristalizadas e defender-se dos outros como ameaças.
No entanto, acredito que todos os dias em algum lugar, nos aproximamos desse ideal. Eu pela minha parte tento prosseguir essa aprendizagem. A arriscar falar e ser surpreendido, mas, acima de tudo, a fazer os esforços necessários para respeitar e relacionar-me com quem nem sempre entendo. Por isso a campanha britânica é tão importante. Algumas pessoas sao homossexuais. Mete isso na cabeça. Segue em frente. Não há nada que possas fazer. Por certo, no pensamento das autoridades eclesiásticas portuguesas que defendem a realização do referendo à legalização das uniões homossexuais está, nao só o desejo de impedir a lei de avançar, mas também a esperança de fazer alguma coisa para salvar essas almas. Ultrapassar o proselitismo da moral intima, em especial vindo de quem tem menos autoridade para o fazer é o primeiro passo que ainda temos de dar. Apesar de parecer bastante primitivo para o avanço civilizacional que temos pela frente. Por isso é também importante a aparente determinação do novo governo em impedir um referendo ao reconhecimento pelo estado das opções íntimas dos seus concidadãos. E um dia, quem sabe, talvez sejamos todos capazes de falar de sexo com pessoas diferentes e sem interferência da assexuada e monossexual hierarquia católica.

Friday, 8 May 2009

É Verão! É Porto!

Os festejos do Porto tornaram-se anúncio de Verão. O Porto campeão começa ser tão natural como o entardecer do entardecer.
Sou portista e como tal tenho vivido muitas alegrias. Mas este ano há qualquer coisa atravessada. O FCP provou ser superior à concorrência, é certo. O Manchester e o Bayern provam-no. Mas houve muitos penalties, muitos erros de guarda-redes adversários e, a gota de água que transborda o copo, aquelas substitutições do V de Setúbal que tiraram os jogadores emprestados pelo Porto e viraram o jogo. Algo tem de mudar para as alegrias voltarem a ser como dantes.

Friday, 6 February 2009

"A época das ideias, dos projectos, da política"

Concordo com o presidente da AICEP quando diz que vivemos uma época de ideias e projectos em que, como não sabemos o que fazer para dar a volta à crise, devemos estar abertos a alternativas ao que tomávamos como adquirido. Só não entendo é como é que isso possa ser compaginado com uma ideia de consenso entre os partidos para fazer face à ameaça. Primeiro, os partidos vão pôr-se de acordo em relação a quê, se ninguém sabe o que fazer? Depois, se há alguma consenso possível é em relação às causas desta situação. E essas estão claramente ligadas a um consenso sobre o modelo de desenvolvimento cuja auto-confiança desprezava alternativas.
O retorno à política tem a ver com a procura de ideias e projectos inovativos que nos façam aproveitar esta situaçao, como sociedade e não como indivíduos ou grupos a tentar tirar vantagens da crise à custa de outros. Para isso o que precisamos é de fomentar um espaço público e político que não desperdice ideias e projectos, por mais radicais que pareçam. Plataformas de diálogo e decisão que incluam a divergência de opinião. Se isso pode ser feito com partidos políticos ou não, é caso para pensar, mas o que não combina é com consenso.
Empresas e outras organizações começaram já há algum tempo a aperceber-se de que, num ambiente de mudança rápida, o sucesso pode ser fatal, se excluir a diferença. Como diz o sociólogo norte-americano David Stark, muitas organizações caem facilmente na armadilha do sucesso, cristalizando procedimentos e afundando-se quando o ambiente muda. A convivência de sistemas de valoração diversos através de modelos de gestão do atrito provocado pela contradição é o que permite às empresas prosperar atravessando crises e transformaçoes profundas. O mesmo se passará com as economias e o grande teste está já aí.

link para a notícia

Wednesday, 4 February 2009

Emigraçao e Escravatura. Os protestos contra os emigrantes portugueses e italianos na fábrica Total em Inglaterra.

Tudo isto é novo - disse Gordon Brown em Davos a propósito do actual momento da economia - vivemos a primeira grande crise financeira da era da globalização, por isso é difícil encontrar lições na história. A verdade é que, com os protestos contra os trabalhadores portugueses e italianos no Reino Unido, velhos fantasmas começam a sair da cave. Curiosamente, pela mão do movimento operário britânico. Curiosamente e assustadoramente. Porque depois das comparações entre a presente crise financeira e a depressão de 1929, podemos agora traçar paralelos entre a direcção das reivindicações dos operários ingleses e os movimentos de massa na Alemanha da década de 30. Quando alguém encontra um culpado que as massas possam identificar, o mais provável é termos uma bola de neve a rolar. E o movimento operário britânico tem força suficiente para inclinar o plano, o que deixa os imigrantes na base da encosta com razões para estarem preocupados.
Por outro lado, sabemos que as forças de centro que governam as democracias Europeias constituem uma fronteira à capacidade dos partidos neo-fascistas capitalizarem o descontentamento. Se o governo britânico está ligado às direcções dos sindicatos e consegue impedir que estas oficializem os protestos, do outro lado, os conservadores estão prontos para oferecerem alguma forma de satisfação para as queixas desta clientela. O resultado de tudo isto é que o centro se transfere para a direita e, se isso impede partidos como o BNP (British National Party) de crescerem para além de certos limites. Em contrapartida, ao evitar-se a polarização, anula-se o debate que pode oferecer resistência a esta tendência.
A verdade é que, apesar da recusa das direcções dos sindicatos em sancionar as greves, estas alastraram do epicentro no Nordeste de Inglaterra para todo o Reino Unido. É mais do que provável que muitos dirigentes sindicais estejam envolvidos na convocação dos protestos .
Seja como for, por intermédio dos novos meios de comunicação , foram activadas redes informais de ligação entre os trabalhadores de um sector particular e fulcral da economia, o sector energético. O que começou por ser um protesto numa refinaria de petróleo foi seguido por protestos em outras empresas relacionadas com provisão de energia, incluindo unidades de energia nuclear. Apesar de se circunscreverem a trabalhadores subcontratados na área da construção, o facto de serem todos funcionários ligados a empresas energéticas leva a pensar que estamos numa zona critica do modelo que escolhemos, por acção ou omissão, para organizar a economia. Lidamos aqui com as duas fontes de energia essenciais do modelo capitalista ocidental. Uma é a energia que faz mover os meios de produção e transporte e faz funcionar os meios de comunicação. A outra, a energia humana aplicada na produção através do trabalho.
Se a produção de energia se tornou num dos aspectos mais problemáticos das sociedades capitalistas avançadas sendo o principal gerador de conflitos internacionais, a gestão da força de trabalho tem passado por um período de aparente paz nos países do ocidente. Sabemos que tal se deve em grande parte ao facto do trabalho manual produtivo ter sido transferido para o Oriente e para o Sul do globo. E de grande parte dos proveitos desse trabalho serem usufruídos deste lado do mundo. Ora com o espectro da escassez de emprego e de meios de consumo, os mecanismos de organização do trabalho tornam-se problemáticos.
Por muito que nos repugne a agitação dos fantasmas nacionalistas, neste caso muito por culpa da reciclagem de um slogan do próprio Gordon Brown -“British Jobs for British workers” -, há que entender o que está na base desta luta. O que despoletou o protesto não foi a competição de trabalhadores imigrados através de circuitos familiares ou locais. O que está aqui em causa não são emigrantes portugueses como há muitos, que vieram viver para Inglaterra, e tentar a sua sorte, fazendo uso de amigos ou conhecidos instalados já há algum tempo. Na verdade estes trabalhadores nem sequer vivem em terra firme. Vieram transportados em bloco através de uma empresa de Sines, subcontratada por uma empresa de Siracusa na Sicília, que foi contratada pela empresa francesa, Total, para levar a cabo a construção de uma refinaria numa localidade do Nordeste Inglês. Estão alojados numa barca perto da foz do rio Hull, um entreposto portuário com importante ligações ao porto de Roterdão por exemplo. A grande questão aqui é: qual é o interesse em recrutar toda a força de trabalho deste projecto no sul da Europa para levar a cabo um projecto de construção numa refinaria do Norte de Inglaterra?
Sabemos que a motivação não é a menor exigência salarial dos trabalhadores portugueses ou italianos. Estes são trabalhadores especializados, bem remunerados, a um nível que os ingleses não desdenhariam. Não, a vantagem que esta mão de obra oferece não é directamente quantificável em salários.
O que faz os trabalhadores circularem pela Europa e pelos poros da pele em crosta da União Europeia não é simplesmente um sonho de mobilidade e liberdade de circulação. Não se trata aqui de um mercado livre em que os trabalhadores podem procurar as condições mais vantajosas. Neste jogo, os trabalhadores são a mercadoria e assim como vemos muitas vezes maçãs nacionais deitadas fora e maçãs importadas nas prateleiras, também o desemprego local pode coexistir com a importacao de mão de obra. O que é comum entre operários e maçãs é uma cultura de circulação típica do sistema económico actual onde a sobrevivência de agentes que beneficiam do transporte de mercadorias é o factor determinante do jogo. O que é particular no caso da mão de obra é que os trabalhadores vindos de fora, desenraizados, de preferência alojados numa barca e sem conhecimento do local onde vão trabalhar, aparecem aos novos e, provavelmente, esporádicos patrões como mais facilmente manipuláveis e acima de tudo mais facilmente descartáveis no final do contrato.
Por isso é tão absurdo que os trabalhadores de Grimsy fiquem desempregados enquanto um contingente de trabalhadores estrangeiros é transportado para o local, como o é a reacção e a selecção de inimigos dos trabalhadores locais. Atacarem o principio de igualdade de direitos imposto pela UE é dar um tiro no pé. É que, apesar de em teoria, os trabalhadores portugueses e italianos terem os mesmos direitos dos ingleses, na pratica, têm menos acesso ao exercício desses direitos. Porque não falam a língua, nem conhecem a lei; porque não têm uma rede social e laboral de apoio, é que eles são preferíveis. Os sindicatos ingleses fariam melhor em criar condições para recrutar os imigrantes e integra-los numa estrutura de defesa dos seus direitos em vez de os ostracizar, pois é exactamente isso que lhes dá vantagem no mercado.
No entanto, talvez essa vantagem seja apenas aparente. Em 1776 Adam Smith escreveu no seu tratado fundador do capitalismo liberalista que a escravatura devia ser abolida. Dizia ele que era mais fácil e barato extrair trabalho de homens livres do que de escravos. A verdade é que o trafico de escravos durou séculos e só começou a ser abolido 30 anos depois da publicação de “A Riqueza das Nações”. Mesmo sendo ineficaz, os interesses daqueles que utilizavam meios avultados no transporte de trabalhadores-mercadoria e a perspectiva, para os seus clientes, de usar mão de obra desenraizada e facilmente manobrável, fez com que o negocio prosperasse por muito tempo. A comparação com a escravatura será mais evidente quando falamos de tráfico emigrantes ilegais do que de trabalhadores subcontratados altamente especializados e bem pagos. Mas não deixa de fazer luz sobre alguns aspectos menos visíveis deste problema.

Tuesday, 27 January 2009

Crise e retoma

Graças à RTP on-line, vi ontem um pouco do ‘Prós e Contras’ sobre a crise. O responsável pelos patrões do Minho, um senhor com uma voz modulada e cheia de auto-confiança, entre repetidas queixas quanto à falta de confiança nos políticos, disse uma coisa acertada: Fala-se muito da crise que se iniciou há pouco mais de um ano atrás mas toda a gente parece esquecer que a crise em Portugal já dura há quinze anos. Ele diz que são 15, mas provavelmente são 50. Ou talvez 500. Ou talvez a historia da economia portuguesa seja, ao contrário da dos países que lideram os ciclos do capitalismo, uma história de permanente crise ponteada por janelas de oportunidade para sair dela. Essas janelas são abertas geralmente por períodos de entrada de riqueza de fora, como os fundos europeus nos anos oitenta ou os tesouros das colónias nos descobrimentos. Oportunidades invariavelmente desperdiçadas pelos poderes políticos e económicos sedentos de imitar as elites dos países hegemónicos.
Mas há outro tipo de oportunidades. As oportunidades oferecidas pela falência dos sistemas de cálculo, produção e valoração em que assenta a economia. Eis o que se nos oferece hoje. Temos neste momento uma janela aberta para repensar os princípios pelos quais organizamos a extracção, produção e distribuição de bens. E talvez, por não ser esta uma oportunidade oferecida por entrada extraordinária de riqueza, ela possa ser agarrada de uma forma séria e estruturada, para que possa produzir efeitos positivos no futuro do pais.
Por isso a palavra retoma talvez deva ser a primeira a desaparecer. É que o que nós queremos não é salvar algo que se tenha perdido. O que nós queremos é construir de novo, aprendendo com os erros.
Para isso será bom ouvir o que dizem aqueles que antes de ela acontecer, previram a crise do sistema financeiro mundial. George Soros e Nassim Taleb, por exemplo, fizeram fortuna nos mercados financeiros antes de avisarem para a insustentabilidade do sistema, escrevendo extensivamente sobre a deficiência dos instrumentos estatísticos e probabilísticos em que se basearam as aventuras abraçadas pelas grandes instituições financeiras. Um sistema onde se compram e vendem opções e futuros, onde se negoceiam acções para ganhar com a sua queda, onde os bancos emprestam mais do que o que têm, não vai ser salvo por Estados endividando-se para comprar os recursos tóxicos dos bancos falidos. É verdade que, como alguém disse sobre os marxistas, muita gente foi capaz de prever pelo menos 10 das últimas 5 crises económicas. Mas quando elas acontecem É sempre bom ir atrás e ver quem as antecipou. E neste caso falamos de pessoas que conhecem os mercados financeiros por dentro e por fora.
E o que sucede no sistema financeiro reflecte e é reflectido pela situação no sistema produtivo e distributivo. Quando se retira do planeta materiais e energia a um ritmo que não permite a sua renovação, alimentando um sistema onde consumidores e empresas são financiados a credito e produzem lixo que não tem onde ser depositado, é evidente que se está a pedir emprestado ao futuro o que se não pode pagar. E aqui também muita gente tem vindo a alertar para a necessidade de formas de desenvolvimento sustentado. Como por exemplo Herman Daly, o autor de 'Steady State Economics', onde defende uma economia que tende para um estado de equilíbrio, de crescimento zero (zero growth), de máxima produtividade sustentável.
Uma ideia que parece inconcebível em Portugal onde fomos convencidos de que o termo de comparação para o crescimento da economia não são os nossos limites estruturais mas a média da União Europeia. De tal forma nos impingiram esta ideia que se nos disserem que "a economia cresceu menos do que a média comunitária"(e não pode de facto nunca ser de outra forma) já sentimos que estamos a regredir. Então se nos vierem falar de crescimento zero, é caso para pensarmos que os nossos bebes vão parar de ganhar peso, as crianças portuguesas não passarão do metro e meio e os centrais portugueses não poderão nunca mais ganhar bolas de cabeça aos avançados alemães.
O que acontece é que, no meio de períodos de grande abundância, como o que vivemos até agora em grande parte do ocidente (será que foi notado em Portugal?), estas vozes são abafadas e as ideias que elas defendem desvalorizadas. Como o Velho do Restelo, a personagem de Camões que o sistema educativo forjado na ditadura transformou em vilão, mas que na verdade era porta voz de uma mensagem de sensatez no meio da ganância reinante.
A verdade é que a presente crise fez reviver teorias como a de Daly e estas podem hoje, mesmo em Inglaterra, ouvir-se discutidas seriamente nos meios de comunicação social. Por isso sinto que, apesar do sofrimento que possa trazer em especial para quem esta habituado a um determinado nível de vida, o período que vivemos é também altamente excitante pois oferece a possibilidade de pôr em causa dados adquiridos, trazer para o espaço público ideias mais arrojadas, reavivar discussões esquecidas, gerar novas propostas e projectos.
É tempo de quebrar ciclos viciosos. Lembro-me de uma campanha eleitoral, julgo que de reeleição da AD em 1980. A coligação de Sa Carneiro tinha um cartaz com um comboio num túnel, uma luz ao fundo e a legenda, "Sair da crise a todo o vapor". Uns dias depois o Partido Comunista, ou talvez um outro partido da oposição, não me recordo, saiu com um cartaz de resposta. Nele havia uma linha férrea em círculo fechado, um comboio de brincar, um túnel e a legenda, "Entrar e sair da crise a todo o vapor". O tempo agora é de fazer menos fumo e tentar mudar de linha.