20 pessoas ocupam 1000 cargos de administração em empresas diferentes. Média de 50 por cabeça. O estudo da CMVM também conclui que 95% dos lugares são ocupados por homens....
Quem o diz é este relatório da cmvm.
Será que isto é justo? Eficiente? Produtivo? Quem são estas 20 pessoas?
Wednesday, 25 May 2011
Monday, 23 May 2011
Conversas de facebook
Quem marcou as eleições para dias depois da possivel bancarrota? Ou será que marcaram a bancarrota para dias antes das eleições? Aqui alguma coisa não bate certo. Não teria sido melhor aprovar a moção de censura do Bloco, quando já toda a gente sabia que o governo estava a afundar o país? ao menos teria evitado este cenário de a escolha do povo parecer subordinada à troika O Sócrates não tem propostas para a economia, ou melhor divulgou um programa que já não vale, o programa do PSD é assustador, o CDS ninguem conhece, mas expuseram as suas ideia à troika. Ou será que o Sócrates teria sempre pedido ajuda externa mal o parlamento fosse suspenso? Se ninguem sabe o verdadeiro estado das contas publicas, porque é que deixaram o governo decidir o timing disto tudo? Acho que se está a inverter as responsabilidades. Os portugueses são parte do problema da economia internacional assim como podem ser parte da solução. Não podemos é passar a vida a engolir a ideia de que há um movimento exterior e superior a que temos de nos juntar ou sujeitar. Quer seja a ideia de que podemos consumir e construir sem produzir, que o a banca espalhou por todo o lado e o Cavaquismo se encarregou de instalar no país, quer seja este fatalismo das duas troikas que nos querem fazer crer que não há alternativa ao endividamento improdutivo. E ainda houve quem ficasse muito chateado quando a Presidenta do Brasil disse que poderia até emprestar dinheiro a Portugal com algumas condições. Estava a meter-se nos assuntos internos do nosso país...
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Rui, o caos é um fantasma que serve para esconder o constante aumento da entropia, a morte lenta pela doença do medo... Para limitar as possibilidades O problema da comparação com a Argentina e Equador, João, é que eles têm recursos com fartura para exportar (gado e petróleo respetivamente). Em Portugal, embora não se vejam tiros nem pilhagens pelas ruas, que eu saiba, a verdade é que a situação é comparável a uma guerra. Os países sofrem ataques (internos e externos) se não encontram formas de aumentar a autonomia. Ou desenvolvem um exército poderoso como os EUA e então podem endividar-se e imprimir notas à vontade... até um dia. E Portugal tornou-se infelizmente um consumidor compulsivo sem autonomia. Não só o Estado. Na nossa vida privada também. E todas as nossas acções têm consequências políticas. Muita gente enriquece à custa do Estado, é verdade. Mas todos precisamos do Estado para combater o caos que realmente me assusta: a miséria, o desamparo, a lei da selva na economia, o desaparecimento da possibilidade de escolher entre projetos políticos diferentes.... O caos, Rui, é o enfraquecimento da capacidade do Estado democrático para definir regras para a economia, apoiar os mais fracos, investir no que ainda não vende, apoiar o que não é massificado, apostar na diferença, possibilitar a criação, preservar o património, distribuir o conhecimento.... O que me assusta nos programas da direita é o que eu vejo no programa dos conservadores em Inglaterra. Depois da Thatcher ter começado a privatizar (por exemplo os comboios e as Universidades tornando-os hoje caríssimos) vem o Cameron, que cresceu num mundo cor de rosa, à parte do resto do país, espetar mais umas machadadas na educação, na saúde, na segurança social. E reduzir os impostos dos mais ricos dizendo que assim atrai o investimento sangrando o Estado... Tentei ler o 'programa' do PSD e julgo que exagerei quando disse que é assustador. Na verdade não tive paciência para tentar espremer o programa contido naquele conjunto de generalidades vazias e frases de manifesto político. As partes que li não são bem de um programa. São de um texto que tenta explicar porque é que os governos do PSD é que foram bons e os do PS é que são maus. Isso preocupa-me porque nega a ideia de que PPC traz renovação. Os governos de Cavaco iniciaram o período de maior entrada de dinheiro em Portugal talvez desde os descobrimentos. E desperdiçaram-no em grande medida a alimentar corrupção e um sector parasita do Estado em especial construção. Os do PS foram óptimos seguidores mas Cavaco começou. Os governos de Cavaco ofereceram, DIas Loureiro e Oliveira e Costa ao sistema financeiro português. Iniciaram o consumo de desperdício que fez crescer o PIB e pôs a conta no prego. Já para não falar de Durão Barroso que abandonou o governo e o país, mudou de nome e hoje é o presidente de Comissão Europeia sem que ninguém consiga sequer apontar meia vantagem para o país que isso possa ter trazido. Depois tivemos Santana Lopes, essa outra grande esperança renovadora... Os governos do PS e os do PSD foram igualmente destrutivos, cumulativamente destrutivos... O que não quer dizer que não possam no futuro dar contributos positivos. Eu acho é que os partidos precisam todos de mudar de atitude. Não se vai conseguir ultrapassar esta crise com o PSD a tentar acusar os governos do PS e vice-versa. Mas concordo que os partidos de esquerda também têm de mudar. Não adianta nada ter um discurso de que "eu é que tenho razão e eles são todos corruptos". Não adianta nada dizer "nós defendemos o trabalho eles o capital". Não adianta dizer nós achamos que a dívida do Estado para com quem descontou a vida toda é mais importante do que a dívida para com um qualquer hedge fund que decidiu arriscar emprestar a 11% porque o retorno é atractivo. Eu acho que é, mas entendo que se o estado falir o problema mantem-se. O que eu acho é que há mais onde cortar do que no estado social. Ha mais onde ir buscar receitas do que aos mercados de bonds e às pensoes. É a hora de todos sermos patriotas. Especialmente quem tem mais. Mas também acho que tudo isso é difícil de organizar e requer mais diálogo do que acusações. Obviamente as pessoas precisam de estar preparadas para lutar e resistir. Se o medo do caos assusta e limita as opções então a única forma de defender posições é ameçando com o caos. Mas eu acho que é hora de se tentar entender quem tem posições diferentes, Ainda que se tente fazer campanha para juntar força às nossas posições. Porque no fim das contas há uma coisa básica que todos devemos querer defender: a nossa autonomia para tomar decisões, a liberdade para realizar potencial, a crença num qualquer conjunto de possibilidades únicas que o país terá para ser autosuficiente, para gerar algo - que não precisa ser dinheiro, ou algo vendável, algo que outros não tenham, que nos dê poder negocial, margem de manobra, capacidade de tomar opções sem precisar de perguntar se é assim que se faz em outros lados. Algo que nos faça felizes e independentes, tipo, eu estou bem aqui não preciso de ti... Não li o programa do PSD em detalhe mas vi que fala do mar. Muito bom. Ainda bem. Grande recurso grande capital subproveitado. Mas há mais. Pessoas. Temos mais portugueses fora do país do que dentro. Pessoas que vêm outras coisas, falam outras línguas. E que não precisam deixar de fazer parte do corpo político, da massa crítica do país. Temos inovação e ciência, ideias novas que precisam de apoio. Clima, um clima fantástico e uma diversidade cultural concentrada num país pequeno e coeso. E apesar de as fortunas em Portugal serem menores do que as de outros países, à escala há muita riqueza não produtiva acumulada. Isoo também é um recurso que terá de ser captado de alguma forma. O mais importante é que a nossa liberdade está em causa. Os líderes políticos, muitos empresários, os sucessivos governos de todos os partidos têm prestado um maus serviço e ajudado a pôr em causa essa liberdade. Mas muita gente ainda é capaz de a defender. Como estes Ana Maria Oliveira, Rui Monteiro Lopes, Diana Cheney e João Bacelo (e eu claro) que se juntaram aqui, provavelmente todos vão votar de forma diferente mas não deixam de se interessar por trocar ideias, discutir e tentar perceber o que é que o outro descobriu, acha e tem para dizer. Isto é tudo tão complicado que às vezes a nossa tendência para achar que temos de parecer muito seguros do que sabemos faz-nos fazer figuras tristes e não ajuda nada. Abraçøs e Beijos para todos... No dia 1 estou em PT e acho que devíamos tentar ter esta conversas ao vivo e a cores...
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Quem trabalha mais deve ganhar mais, quem trabalha menos, deve ganhar menos. Quem não trabalha nada.... deve ganhar nada? Será que isto é possível? Será que é possível alguem não fazer nada? E não ter nada? Eu acho difícil de conceber. O que acontece é que as coisas que algumas pessoas fazem são mais bem remuneradas do que as coisas que outras pessoas fazem. Algumas coisas que algumas pessoas fazem até não valem dinheiro nenhum. Mas podem ter imenso valor. E há gente que não faz nada e pode ganhar muito num golpe de sorte. E há gente que trabalha muito e gente que se esforça menos. E estas desigualdades e injustiças a gente lê um livro de Taoismo e aceita. É assim e também não é muito grave. Mas nada? Não fazer nada? Tenho a impressão que será muito raro. E menos provável será entre gente de meios mais desfavorecidos do que de origens mais privilegiadas. Quem ganha mais, seja porque trabalha mais, ou porque fez um bom negócio, ou porque participa de um fundo que apostou no aumento das taxas de juro ou ganhou a jogar poker (será que o governo português poderia fazer o que fez o americano e acusar os websites de poker de evasão fiscal proibindo os Americanos de jogar neles?) deve sentir-se feliz porque a saúde a inteligência e/ou a sorte lhe permitiram não estar na situação do que tem de receber rendimento mínimo. E devia contribuir para o Estado em vez de se queixar da barriga cheia. O desperdício não está nos apoios sociais do Estado. Está no caixote do lixo!
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Rui, o caos é um fantasma que serve para esconder o constante aumento da entropia, a morte lenta pela doença do medo... Para limitar as possibilidades O problema da comparação com a Argentina e Equador, João, é que eles têm recursos com fartura para exportar (gado e petróleo respetivamente). Em Portugal, embora não se vejam tiros nem pilhagens pelas ruas, que eu saiba, a verdade é que a situação é comparável a uma guerra. Os países sofrem ataques (internos e externos) se não encontram formas de aumentar a autonomia. Ou desenvolvem um exército poderoso como os EUA e então podem endividar-se e imprimir notas à vontade... até um dia. E Portugal tornou-se infelizmente um consumidor compulsivo sem autonomia. Não só o Estado. Na nossa vida privada também. E todas as nossas acções têm consequências políticas. Muita gente enriquece à custa do Estado, é verdade. Mas todos precisamos do Estado para combater o caos que realmente me assusta: a miséria, o desamparo, a lei da selva na economia, o desaparecimento da possibilidade de escolher entre projetos políticos diferentes.... O caos, Rui, é o enfraquecimento da capacidade do Estado democrático para definir regras para a economia, apoiar os mais fracos, investir no que ainda não vende, apoiar o que não é massificado, apostar na diferença, possibilitar a criação, preservar o património, distribuir o conhecimento.... O que me assusta nos programas da direita é o que eu vejo no programa dos conservadores em Inglaterra. Depois da Thatcher ter começado a privatizar (por exemplo os comboios e as Universidades tornando-os hoje caríssimos) vem o Cameron, que cresceu num mundo cor de rosa, à parte do resto do país, espetar mais umas machadadas na educação, na saúde, na segurança social. E reduzir os impostos dos mais ricos dizendo que assim atrai o investimento sangrando o Estado... Tentei ler o 'programa' do PSD e julgo que exagerei quando disse que é assustador. Na verdade não tive paciência para tentar espremer o programa contido naquele conjunto de generalidades vazias e frases de manifesto político. As partes que li não são bem de um programa. São de um texto que tenta explicar porque é que os governos do PSD é que foram bons e os do PS é que são maus. Isso preocupa-me porque nega a ideia de que PPC traz renovação. Os governos de Cavaco iniciaram o período de maior entrada de dinheiro em Portugal talvez desde os descobrimentos. E desperdiçaram-no em grande medida a alimentar corrupção e um sector parasita do Estado em especial construção. Os do PS foram óptimos seguidores mas Cavaco começou. Os governos de Cavaco ofereceram, DIas Loureiro e Oliveira e Costa ao sistema financeiro português. Iniciaram o consumo de desperdício que fez crescer o PIB e pôs a conta no prego. Já para não falar de Durão Barroso que abandonou o governo e o país, mudou de nome e hoje é o presidente de Comissão Europeia sem que ninguém consiga sequer apontar meia vantagem para o país que isso possa ter trazido. Depois tivemos Santana Lopes, essa outra grande esperança renovadora... Os governos do PS e os do PSD foram igualmente destrutivos, cumulativamente destrutivos... O que não quer dizer que não possam no futuro dar contributos positivos. Eu acho é que os partidos precisam todos de mudar de atitude. Não se vai conseguir ultrapassar esta crise com o PSD a tentar acusar os governos do PS e vice-versa. Mas concordo que os partidos de esquerda também têm de mudar. Não adianta nada ter um discurso de que "eu é que tenho razão e eles são todos corruptos". Não adianta nada dizer "nós defendemos o trabalho eles o capital". Não adianta dizer nós achamos que a dívida do Estado para com quem descontou a vida toda é mais importante do que a dívida para com um qualquer hedge fund que decidiu arriscar emprestar a 11% porque o retorno é atractivo. Eu acho que é, mas entendo que se o estado falir o problema mantem-se. O que eu acho é que há mais onde cortar do que no estado social. Ha mais onde ir buscar receitas do que aos mercados de bonds e às pensoes. É a hora de todos sermos patriotas. Especialmente quem tem mais. Mas também acho que tudo isso é difícil de organizar e requer mais diálogo do que acusações. Obviamente as pessoas precisam de estar preparadas para lutar e resistir. Se o medo do caos assusta e limita as opções então a única forma de defender posições é ameçando com o caos. Mas eu acho que é hora de se tentar entender quem tem posições diferentes, Ainda que se tente fazer campanha para juntar força às nossas posições. Porque no fim das contas há uma coisa básica que todos devemos querer defender: a nossa autonomia para tomar decisões, a liberdade para realizar potencial, a crença num qualquer conjunto de possibilidades únicas que o país terá para ser autosuficiente, para gerar algo - que não precisa ser dinheiro, ou algo vendável, algo que outros não tenham, que nos dê poder negocial, margem de manobra, capacidade de tomar opções sem precisar de perguntar se é assim que se faz em outros lados. Algo que nos faça felizes e independentes, tipo, eu estou bem aqui não preciso de ti... Não li o programa do PSD em detalhe mas vi que fala do mar. Muito bom. Ainda bem. Grande recurso grande capital subproveitado. Mas há mais. Pessoas. Temos mais portugueses fora do país do que dentro. Pessoas que vêm outras coisas, falam outras línguas. E que não precisam deixar de fazer parte do corpo político, da massa crítica do país. Temos inovação e ciência, ideias novas que precisam de apoio. Clima, um clima fantástico e uma diversidade cultural concentrada num país pequeno e coeso. E apesar de as fortunas em Portugal serem menores do que as de outros países, à escala há muita riqueza não produtiva acumulada. Isoo também é um recurso que terá de ser captado de alguma forma. O mais importante é que a nossa liberdade está em causa. Os líderes políticos, muitos empresários, os sucessivos governos de todos os partidos têm prestado um maus serviço e ajudado a pôr em causa essa liberdade. Mas muita gente ainda é capaz de a defender. Como estes Ana Maria Oliveira, Rui Monteiro Lopes, Diana Cheney e João Bacelo (e eu claro) que se juntaram aqui, provavelmente todos vão votar de forma diferente mas não deixam de se interessar por trocar ideias, discutir e tentar perceber o que é que o outro descobriu, acha e tem para dizer. Isto é tudo tão complicado que às vezes a nossa tendência para achar que temos de parecer muito seguros do que sabemos faz-nos fazer figuras tristes e não ajuda nada. Abraçøs e Beijos para todos... No dia 1 estou em PT e acho que devíamos tentar ter esta conversas ao vivo e a cores...
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Quem trabalha mais deve ganhar mais, quem trabalha menos, deve ganhar menos. Quem não trabalha nada.... deve ganhar nada? Será que isto é possível? Será que é possível alguem não fazer nada? E não ter nada? Eu acho difícil de conceber. O que acontece é que as coisas que algumas pessoas fazem são mais bem remuneradas do que as coisas que outras pessoas fazem. Algumas coisas que algumas pessoas fazem até não valem dinheiro nenhum. Mas podem ter imenso valor. E há gente que não faz nada e pode ganhar muito num golpe de sorte. E há gente que trabalha muito e gente que se esforça menos. E estas desigualdades e injustiças a gente lê um livro de Taoismo e aceita. É assim e também não é muito grave. Mas nada? Não fazer nada? Tenho a impressão que será muito raro. E menos provável será entre gente de meios mais desfavorecidos do que de origens mais privilegiadas. Quem ganha mais, seja porque trabalha mais, ou porque fez um bom negócio, ou porque participa de um fundo que apostou no aumento das taxas de juro ou ganhou a jogar poker (será que o governo português poderia fazer o que fez o americano e acusar os websites de poker de evasão fiscal proibindo os Americanos de jogar neles?) deve sentir-se feliz porque a saúde a inteligência e/ou a sorte lhe permitiram não estar na situação do que tem de receber rendimento mínimo. E devia contribuir para o Estado em vez de se queixar da barriga cheia. O desperdício não está nos apoios sociais do Estado. Está no caixote do lixo!
Wednesday, 18 May 2011
A força das palavras
Desde há coisa de um ano vimos instalar-se na imprensa internacional, a sigla “PIGS”. O acrónimo refere-se ao conjunto de países composto por Portugal, Irlanda (Itália entretanto conseguiu excluir-se) e Grécia. Em paralelo e com a mesma naturalidade a avaliação da credibilidade financeira de Portugal (e dos outros países chamados ‘PIGS’) aparece referida nos media como aproximando-se de “Junk”. As referencias a um conjunto de países como “porcos” e à sua credibilidade como “lixo” tornou-se parte rotineira do discurso aparentemente técnico dos observadores da economia europeia. Dizia Ricardo Araújo Pereira, membro do Governo Sombra da TSF, no seu estilo híbrido entre estudioso de semiótica e artista do Levanta-te e Ri, que há algo de politicamente relevante nas palavras que a imprensa usa para definir realidades económicas e sociais. Dizia ele, que estas denominações imprimidas diariamente na imprensa têm consequências reais e criticava com humor o facto de não aparecerem em contrapágina palavras como “chulos” ou “ladrões” para descrever agencias de rating ou agentes financeiros que especulam com as dívidas de países fragilizados.
As decisões das instâncias políticas baseiam-se em ideias. Mesmo quando têm forte componente estatística, essas ideias baseiam-se em palavras. Os próprios números se baseiam em palavras. É impossível fazer análises estatísticas sem fazer opções, escolher e excluir. Desde a contagem mais básica até à operação mais complexa, ideias e conceitos operam na formulação dos problemas, selecção das operações, apresentação dos resultados. Crucialmente, as escolhas que os povos tomam em democracias são elas também baseadas em ideias, muitas delas circulando em palavras. Quero dizer, o julgamento de um cidadão eleitor finlandês ou português será forçosamente influenciado pelas palavras que circulam nos media e nos discursos dos políticos e até dos economistas. Chamar PIGS a um conjunto de países influencia a posição dos eleitores ingleses que têm de decidir se os seu governo faz bem ou mal em promover uma política de integração política económica e social dos diversos países da Europa. A denominação de Porcos a um conjunto de países não se estabelece só porque o acrónimo resulta em inglês. Parte do seu poder é auto-realizável e retro-alimentado pela realidade que empurra. Agrupar um conjunto de países sob uma denominação pejorativa reflete e impulsiona soluções formulaicas conjuntas e baseadas em avaliações que colocam os países em situação de inferioridade e sujeitos a estereótipos também eles pejorativos.
Numa das passadas semanas, R.A.P. retomou a questão para se referir à escolha de palavras para a intervenção da troika. Era importante não lhe chamar “ajuda” porque de fato se tratava de um empréstimo a juros lucrativos, acompanhado de ingerência na política económica e no sacrifício dos cidadãos como contrapartidas. Resgate seria melhor embora de alguma forma refletisse também uma ideia de salvação de um sequestro colocando mais uma vez o papel filantrópico nas mãos dos financiadores. Ora, na língua inglesa, estas intervenções do FMI sobre países em dificuldades, assim como as intervenções dos Estados para salvar os Bancos insolventes denomina-se “Bail-out”. “Bail out” quer dizer caução, fiança, o dinheiro que o juiz determina necessário para que um prisioneiro possa esperar até à leitura da sentença em liberdade. Pois o que isto significa é que o contributo de 26 mil milhões euros do FMI para o pacote da Troika irá libertar Portugal temporariamente. Como qualquer fiança, este dinheiro vem com outras medidas de coação: ordens restritivas (imposições de política económica) e pulseira electrónica (monitoramento do cumprimento do acordo). Mas o milhão de dólares e disponibilidade para usar pulseira eletrónica oferecidos pelos seus advogados, não foram suficientes para permitir ao presidente do FMI aguardar julgamento em liberdade. A recente prisão de Dominique Strauss-Khan é irónica nesse aspecto. Tendo usado a palavra tantas vezes, com certeza DSK não esperava ter de ser ele a pedir um bail out. Mas acima de tudo o caso revela uma realidade chocante. O até agora favorito a líder da esquerda francesa, o homem que tem como modo de vida impor medidas de austeridade e sacrifício aos mais pobres dos países em dificuldade, pernoita habitualmente em hotéis de 2 000 euros por noite em Nova Iorque e alegadamente gosta de exercer o seu poder macho em relações fortuitas com mulheres em trabalho, sejam elas jornalistas ou empregadas de limpeza de hotel. Haverá alguma ligação entre estes comportamentos e a forma como a instituição a que preside aborda os problemas políticos do mundo. Ou será que é a ideologia que precisa de ser resgatada para haver politica e comunicação com princípios? Para começar seria interessante estarmos mais atentos ao peso das palavras. E sermos capazes de as usar de forma mais cuidadosa, mas também mais incisiva.
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