Concordo com o presidente da AICEP quando diz que vivemos uma época de ideias e projectos em que, como não sabemos o que fazer para dar a volta à crise, devemos estar abertos a alternativas ao que tomávamos como adquirido. Só não entendo é como é que isso possa ser compaginado com uma ideia de consenso entre os partidos para fazer face à ameaça. Primeiro, os partidos vão pôr-se de acordo em relação a quê, se ninguém sabe o que fazer? Depois, se há alguma consenso possível é em relação às causas desta situação. E essas estão claramente ligadas a um consenso sobre o modelo de desenvolvimento cuja auto-confiança desprezava alternativas.
O retorno à política tem a ver com a procura de ideias e projectos inovativos que nos façam aproveitar esta situaçao, como sociedade e não como indivíduos ou grupos a tentar tirar vantagens da crise à custa de outros. Para isso o que precisamos é de fomentar um espaço público e político que não desperdice ideias e projectos, por mais radicais que pareçam. Plataformas de diálogo e decisão que incluam a divergência de opinião. Se isso pode ser feito com partidos políticos ou não, é caso para pensar, mas o que não combina é com consenso.
Empresas e outras organizações começaram já há algum tempo a aperceber-se de que, num ambiente de mudança rápida, o sucesso pode ser fatal, se excluir a diferença. Como diz o sociólogo norte-americano David Stark, muitas organizações caem facilmente na armadilha do sucesso, cristalizando procedimentos e afundando-se quando o ambiente muda. A convivência de sistemas de valoração diversos através de modelos de gestão do atrito provocado pela contradição é o que permite às empresas prosperar atravessando crises e transformaçoes profundas. O mesmo se passará com as economias e o grande teste está já aí.
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Friday, 6 February 2009
Wednesday, 4 February 2009
Emigraçao e Escravatura. Os protestos contra os emigrantes portugueses e italianos na fábrica Total em Inglaterra.
Tudo isto é novo - disse Gordon Brown em Davos a propósito do actual momento da economia - vivemos a primeira grande crise financeira da era da globalização, por isso é difícil encontrar lições na história. A verdade é que, com os protestos contra os trabalhadores portugueses e italianos no Reino Unido, velhos fantasmas começam a sair da cave. Curiosamente, pela mão do movimento operário britânico. Curiosamente e assustadoramente. Porque depois das comparações entre a presente crise financeira e a depressão de 1929, podemos agora traçar paralelos entre a direcção das reivindicações dos operários ingleses e os movimentos de massa na Alemanha da década de 30. Quando alguém encontra um culpado que as massas possam identificar, o mais provável é termos uma bola de neve a rolar. E o movimento operário britânico tem força suficiente para inclinar o plano, o que deixa os imigrantes na base da encosta com razões para estarem preocupados.
Por outro lado, sabemos que as forças de centro que governam as democracias Europeias constituem uma fronteira à capacidade dos partidos neo-fascistas capitalizarem o descontentamento. Se o governo britânico está ligado às direcções dos sindicatos e consegue impedir que estas oficializem os protestos, do outro lado, os conservadores estão prontos para oferecerem alguma forma de satisfação para as queixas desta clientela. O resultado de tudo isto é que o centro se transfere para a direita e, se isso impede partidos como o BNP (British National Party) de crescerem para além de certos limites. Em contrapartida, ao evitar-se a polarização, anula-se o debate que pode oferecer resistência a esta tendência.
A verdade é que, apesar da recusa das direcções dos sindicatos em sancionar as greves, estas alastraram do epicentro no Nordeste de Inglaterra para todo o Reino Unido. É mais do que provável que muitos dirigentes sindicais estejam envolvidos na convocação dos protestos .
Seja como for, por intermédio dos novos meios de comunicação , foram activadas redes informais de ligação entre os trabalhadores de um sector particular e fulcral da economia, o sector energético. O que começou por ser um protesto numa refinaria de petróleo foi seguido por protestos em outras empresas relacionadas com provisão de energia, incluindo unidades de energia nuclear. Apesar de se circunscreverem a trabalhadores subcontratados na área da construção, o facto de serem todos funcionários ligados a empresas energéticas leva a pensar que estamos numa zona critica do modelo que escolhemos, por acção ou omissão, para organizar a economia. Lidamos aqui com as duas fontes de energia essenciais do modelo capitalista ocidental. Uma é a energia que faz mover os meios de produção e transporte e faz funcionar os meios de comunicação. A outra, a energia humana aplicada na produção através do trabalho.
Se a produção de energia se tornou num dos aspectos mais problemáticos das sociedades capitalistas avançadas sendo o principal gerador de conflitos internacionais, a gestão da força de trabalho tem passado por um período de aparente paz nos países do ocidente. Sabemos que tal se deve em grande parte ao facto do trabalho manual produtivo ter sido transferido para o Oriente e para o Sul do globo. E de grande parte dos proveitos desse trabalho serem usufruídos deste lado do mundo. Ora com o espectro da escassez de emprego e de meios de consumo, os mecanismos de organização do trabalho tornam-se problemáticos.
Por muito que nos repugne a agitação dos fantasmas nacionalistas, neste caso muito por culpa da reciclagem de um slogan do próprio Gordon Brown -“British Jobs for British workers” -, há que entender o que está na base desta luta. O que despoletou o protesto não foi a competição de trabalhadores imigrados através de circuitos familiares ou locais. O que está aqui em causa não são emigrantes portugueses como há muitos, que vieram viver para Inglaterra, e tentar a sua sorte, fazendo uso de amigos ou conhecidos instalados já há algum tempo. Na verdade estes trabalhadores nem sequer vivem em terra firme. Vieram transportados em bloco através de uma empresa de Sines, subcontratada por uma empresa de Siracusa na Sicília, que foi contratada pela empresa francesa, Total, para levar a cabo a construção de uma refinaria numa localidade do Nordeste Inglês. Estão alojados numa barca perto da foz do rio Hull, um entreposto portuário com importante ligações ao porto de Roterdão por exemplo. A grande questão aqui é: qual é o interesse em recrutar toda a força de trabalho deste projecto no sul da Europa para levar a cabo um projecto de construção numa refinaria do Norte de Inglaterra?
Sabemos que a motivação não é a menor exigência salarial dos trabalhadores portugueses ou italianos. Estes são trabalhadores especializados, bem remunerados, a um nível que os ingleses não desdenhariam. Não, a vantagem que esta mão de obra oferece não é directamente quantificável em salários.
O que faz os trabalhadores circularem pela Europa e pelos poros da pele em crosta da União Europeia não é simplesmente um sonho de mobilidade e liberdade de circulação. Não se trata aqui de um mercado livre em que os trabalhadores podem procurar as condições mais vantajosas. Neste jogo, os trabalhadores são a mercadoria e assim como vemos muitas vezes maçãs nacionais deitadas fora e maçãs importadas nas prateleiras, também o desemprego local pode coexistir com a importacao de mão de obra. O que é comum entre operários e maçãs é uma cultura de circulação típica do sistema económico actual onde a sobrevivência de agentes que beneficiam do transporte de mercadorias é o factor determinante do jogo. O que é particular no caso da mão de obra é que os trabalhadores vindos de fora, desenraizados, de preferência alojados numa barca e sem conhecimento do local onde vão trabalhar, aparecem aos novos e, provavelmente, esporádicos patrões como mais facilmente manipuláveis e acima de tudo mais facilmente descartáveis no final do contrato.
Por isso é tão absurdo que os trabalhadores de Grimsy fiquem desempregados enquanto um contingente de trabalhadores estrangeiros é transportado para o local, como o é a reacção e a selecção de inimigos dos trabalhadores locais. Atacarem o principio de igualdade de direitos imposto pela UE é dar um tiro no pé. É que, apesar de em teoria, os trabalhadores portugueses e italianos terem os mesmos direitos dos ingleses, na pratica, têm menos acesso ao exercício desses direitos. Porque não falam a língua, nem conhecem a lei; porque não têm uma rede social e laboral de apoio, é que eles são preferíveis. Os sindicatos ingleses fariam melhor em criar condições para recrutar os imigrantes e integra-los numa estrutura de defesa dos seus direitos em vez de os ostracizar, pois é exactamente isso que lhes dá vantagem no mercado.
No entanto, talvez essa vantagem seja apenas aparente. Em 1776 Adam Smith escreveu no seu tratado fundador do capitalismo liberalista que a escravatura devia ser abolida. Dizia ele que era mais fácil e barato extrair trabalho de homens livres do que de escravos. A verdade é que o trafico de escravos durou séculos e só começou a ser abolido 30 anos depois da publicação de “A Riqueza das Nações”. Mesmo sendo ineficaz, os interesses daqueles que utilizavam meios avultados no transporte de trabalhadores-mercadoria e a perspectiva, para os seus clientes, de usar mão de obra desenraizada e facilmente manobrável, fez com que o negocio prosperasse por muito tempo. A comparação com a escravatura será mais evidente quando falamos de tráfico emigrantes ilegais do que de trabalhadores subcontratados altamente especializados e bem pagos. Mas não deixa de fazer luz sobre alguns aspectos menos visíveis deste problema.
Por outro lado, sabemos que as forças de centro que governam as democracias Europeias constituem uma fronteira à capacidade dos partidos neo-fascistas capitalizarem o descontentamento. Se o governo britânico está ligado às direcções dos sindicatos e consegue impedir que estas oficializem os protestos, do outro lado, os conservadores estão prontos para oferecerem alguma forma de satisfação para as queixas desta clientela. O resultado de tudo isto é que o centro se transfere para a direita e, se isso impede partidos como o BNP (British National Party) de crescerem para além de certos limites. Em contrapartida, ao evitar-se a polarização, anula-se o debate que pode oferecer resistência a esta tendência.
A verdade é que, apesar da recusa das direcções dos sindicatos em sancionar as greves, estas alastraram do epicentro no Nordeste de Inglaterra para todo o Reino Unido. É mais do que provável que muitos dirigentes sindicais estejam envolvidos na convocação dos protestos .
Seja como for, por intermédio dos novos meios de comunicação , foram activadas redes informais de ligação entre os trabalhadores de um sector particular e fulcral da economia, o sector energético. O que começou por ser um protesto numa refinaria de petróleo foi seguido por protestos em outras empresas relacionadas com provisão de energia, incluindo unidades de energia nuclear. Apesar de se circunscreverem a trabalhadores subcontratados na área da construção, o facto de serem todos funcionários ligados a empresas energéticas leva a pensar que estamos numa zona critica do modelo que escolhemos, por acção ou omissão, para organizar a economia. Lidamos aqui com as duas fontes de energia essenciais do modelo capitalista ocidental. Uma é a energia que faz mover os meios de produção e transporte e faz funcionar os meios de comunicação. A outra, a energia humana aplicada na produção através do trabalho.
Se a produção de energia se tornou num dos aspectos mais problemáticos das sociedades capitalistas avançadas sendo o principal gerador de conflitos internacionais, a gestão da força de trabalho tem passado por um período de aparente paz nos países do ocidente. Sabemos que tal se deve em grande parte ao facto do trabalho manual produtivo ter sido transferido para o Oriente e para o Sul do globo. E de grande parte dos proveitos desse trabalho serem usufruídos deste lado do mundo. Ora com o espectro da escassez de emprego e de meios de consumo, os mecanismos de organização do trabalho tornam-se problemáticos.
Por muito que nos repugne a agitação dos fantasmas nacionalistas, neste caso muito por culpa da reciclagem de um slogan do próprio Gordon Brown -“British Jobs for British workers” -, há que entender o que está na base desta luta. O que despoletou o protesto não foi a competição de trabalhadores imigrados através de circuitos familiares ou locais. O que está aqui em causa não são emigrantes portugueses como há muitos, que vieram viver para Inglaterra, e tentar a sua sorte, fazendo uso de amigos ou conhecidos instalados já há algum tempo. Na verdade estes trabalhadores nem sequer vivem em terra firme. Vieram transportados em bloco através de uma empresa de Sines, subcontratada por uma empresa de Siracusa na Sicília, que foi contratada pela empresa francesa, Total, para levar a cabo a construção de uma refinaria numa localidade do Nordeste Inglês. Estão alojados numa barca perto da foz do rio Hull, um entreposto portuário com importante ligações ao porto de Roterdão por exemplo. A grande questão aqui é: qual é o interesse em recrutar toda a força de trabalho deste projecto no sul da Europa para levar a cabo um projecto de construção numa refinaria do Norte de Inglaterra?
Sabemos que a motivação não é a menor exigência salarial dos trabalhadores portugueses ou italianos. Estes são trabalhadores especializados, bem remunerados, a um nível que os ingleses não desdenhariam. Não, a vantagem que esta mão de obra oferece não é directamente quantificável em salários.
O que faz os trabalhadores circularem pela Europa e pelos poros da pele em crosta da União Europeia não é simplesmente um sonho de mobilidade e liberdade de circulação. Não se trata aqui de um mercado livre em que os trabalhadores podem procurar as condições mais vantajosas. Neste jogo, os trabalhadores são a mercadoria e assim como vemos muitas vezes maçãs nacionais deitadas fora e maçãs importadas nas prateleiras, também o desemprego local pode coexistir com a importacao de mão de obra. O que é comum entre operários e maçãs é uma cultura de circulação típica do sistema económico actual onde a sobrevivência de agentes que beneficiam do transporte de mercadorias é o factor determinante do jogo. O que é particular no caso da mão de obra é que os trabalhadores vindos de fora, desenraizados, de preferência alojados numa barca e sem conhecimento do local onde vão trabalhar, aparecem aos novos e, provavelmente, esporádicos patrões como mais facilmente manipuláveis e acima de tudo mais facilmente descartáveis no final do contrato.
Por isso é tão absurdo que os trabalhadores de Grimsy fiquem desempregados enquanto um contingente de trabalhadores estrangeiros é transportado para o local, como o é a reacção e a selecção de inimigos dos trabalhadores locais. Atacarem o principio de igualdade de direitos imposto pela UE é dar um tiro no pé. É que, apesar de em teoria, os trabalhadores portugueses e italianos terem os mesmos direitos dos ingleses, na pratica, têm menos acesso ao exercício desses direitos. Porque não falam a língua, nem conhecem a lei; porque não têm uma rede social e laboral de apoio, é que eles são preferíveis. Os sindicatos ingleses fariam melhor em criar condições para recrutar os imigrantes e integra-los numa estrutura de defesa dos seus direitos em vez de os ostracizar, pois é exactamente isso que lhes dá vantagem no mercado.
No entanto, talvez essa vantagem seja apenas aparente. Em 1776 Adam Smith escreveu no seu tratado fundador do capitalismo liberalista que a escravatura devia ser abolida. Dizia ele que era mais fácil e barato extrair trabalho de homens livres do que de escravos. A verdade é que o trafico de escravos durou séculos e só começou a ser abolido 30 anos depois da publicação de “A Riqueza das Nações”. Mesmo sendo ineficaz, os interesses daqueles que utilizavam meios avultados no transporte de trabalhadores-mercadoria e a perspectiva, para os seus clientes, de usar mão de obra desenraizada e facilmente manobrável, fez com que o negocio prosperasse por muito tempo. A comparação com a escravatura será mais evidente quando falamos de tráfico emigrantes ilegais do que de trabalhadores subcontratados altamente especializados e bem pagos. Mas não deixa de fazer luz sobre alguns aspectos menos visíveis deste problema.
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