Diz que figuras do passado não devem ser julgadas por critérios do presente. Mas, e quem lhes ergue estátuas? E quem as mantém? E quem as restaura? E quem lhes grava laudos em placas de bronze? E quem as defende? E os guias turísticos que as louvam? E quem acha que devemos ter os mesmos heróis para sempre? Com que critérios de que tempo devem ser julgados?
O movimento antirracista impulsionado pelas
imagens do brutal assassinato de George Floyd em Minneapolis resultou numa série
de protestos públicos por todo o mundo. Em alguns desses eventos houve ataques
a estátuas representando figuras associadas com esclavagismo, racismo e
colonialismo – que, é sempre bom lembrar, são 3 lados do mesmo triângulo. A
estátua de Edward Colston foi derrubada e deitada ao rio em Bristol, a estátua
de Churchil em Londres e a de António Vieira em Lisboa foram pintadas com grafitos,
e várias estátuas de Cristóvão Colombo e de figuras da confederação nos Estados
Unidos foram derrubadas, decapitadas ou simplesmente pintadas. Passados uns
dias, pinturas foram limpas, estátuas foram recuperadas e retiradas do espaço
público, e debates mais ou menos antigos em tornos do significado e futuro
destes monumentos foram reavivados.
Nas respostas mais ou menos irrefletidas,
quer dos apoiantes que acham que as estátuas são a base de um castelo de cartas
que precisa ser derrubado, quer dos que se dizem indignadas com o vandalismo
deslocado e sem sentido de quem quer reescrever a história de forma ilegítima,
quer ainda daqueles que até concordam com os princípios dos manifestantes mas
se querem dissociar dos métodos usados, há muitas pistas para entender o
problema das estátuas.
Infelizmente o tom de muitas destas reações
tende a afastar-nos da possibilidade de pensar este problema e as suas
possíveis soluções. As únicas conclusões possíveis destas posições seriam: ou
não há problema nenhum, ou o problema está com os vândalos que precisam ser
disciplinados e as estátuas protegidas. Tentemos então por um momento
afastar-nos por uns momentos das vozes mais estridentes do nosso espaço público
e olhar para o debate com alguma distância para pensar um pouco em como estes
eventos e as reações que suscitaram podem ajudar-nos a entender o problema das
estátuas.
A primeira coisa que se percebe em muitas reações
é o poder mágico das estátuas. Quando alguém diz que os manifestantes atacaram
figuras do passado percebemos como um objeto de pedra ou bronze criado por um
ou mais artistas, erigido e colocado num espaço público e modificado
quotidianamente por pássaros, ventos, líquenes e funcionários da câmara se
transforma aos olhos do público na pessoa que representa. Se pintar uma estátua
ou mesmo arrancá-la do plinto e deita-la ao rio é violência, quase parece ser violência
contra uma pessoa. Podemos dizer, pedindo emprestado o termo a Pierre Bourdieu,
que é uma forma de violência simbólica. Mas quem a comete fá-lo contra a violência
simbólica que a própria estatua e o seu contexto exercem sobre o espaço publico
onde está situada. Se há vítimas humanas dessa forma de violência podemos dizer
que são mais os artistas que a esculpiram, e todas as forças políticas,
históricas e educativas que promoveram a imagem específica que aquela estátua
tentou imortalizar do que a vida e a obra do ser mortal que a estátua promete
falsamente imortalizar.
A estatua do padre António vieira no largo da
Misericórdia em lisboa é um exemplo interessante. Se o ataque à estátua fosse
um ataque ao padre-escritor faria sentido fazer uma critica literária ou
política dos seus textos e concluir a pena de vandalismo injusta ou ignorante.
Mas se o gesto é contra a própria representação do pare não como um produtor de
textos e argumentos mas como um protetor de criancinhas indefesas e
inocentemente gratas pelo paternalismo colonial do evangelizador então o
argumento é outro. È um argumento sobre história, memória, espaço urbano. O que
a estátua erigida em 2017 imortaliza, não é o padre - a sua imortalidade depende exclusivamente do seu Deus - mas sim o
discurso civilizador, de que a cidade de lisboa foi capital metropolitana
durante os séculos 19 e 20, e que continua a organizar o espaço urbano do século 21.
Se a estátua tivesse sido erguida em 1968 quando o presidente do conselho dizia
continuar a acreditar na 'superioridade moral da nossa civilização sobre raças
menos evoluídas' (arquivos da RTP) talvez fosse caso para pensar como re-contextualizar.
Mas a estátua foi erguida em 2017! Neste tempo, a geografia da capital é uma
imagem fractal da geografia do império. Os mapas residenciais e culturais da
cidade são imagens de um poder centralizado e civilizador das periferias
violentas e ignorantes de que as instituições de caridade são a mão pretensamente
benévola. O afã de imortalizar essa imagem de superioridade moral sobre os
necessitados outros é o alvo a atingir por estas ações. Não o padre.

