Hashtag fora temer: individualismo radical
Vejo no meu computador pessoal, um vídeo de uma senhora nas bancadas de um estádio brasileiro durante o jogo do Brasil para os jogos olímpicos. A senhora recebe ordem de um policia para embrulhar um cartaz e esconder a camisa, por causa da mensagem que tem escrita em ambas. E qual o teor de mensagem tão perigosa e disruptiva? '# FORATEMER!'.
Hashtag fora temer?
Sim: #Fora Temer.
O vídeo partilhado por um ‘amigo’ do Facebook, mostra como a mensagem leva um diligente, apesar de contrariado, de um cidadão responsável por manter a ordem pública a garantir que as pessoas e câmaras de televisão presentes naquele estádio não sejam mais confrontadas com essa frase: # Fora Temer. Mas uma câmara pessoal filmou tudo e eu acompanho agora a ação.
O soldado da polícia militar diz à senhora que não basta esconder o cartaz, que terá que esconder a camisa.
Alguém sentado próximo da senhora usa o seu celular para difundir este vídeo na rede, onde se associará a milhões de outras imagens, pequenas frases e ligações que também tenham colado o dito hashtag. As mensagens ou conteúdos que tiverem o hashtag (ou ‘etiqueta de escrutínio’) foratemer serão agregados, para poderem ser liveremente consultados depois. Mas quem usar o hashtag na camisa está proibido de permanecer neste ajuntamento,
Na rede podem usar-se vários hashtags.Mas nos estádios olímpicos outros hashtags dominam e não aceitam competição. Aqui a etiqueta é Rio16. As cores são o verde e o amarelo, que também classificam politicamente estes tempos de política brasileira acesa. Em algumas manifestações em cidades brasileiras no último ano houve até quem proibisse o vermelho. Nos Jogos olímpicos não se chegou a tanto, mas como este é um universo de iconografia sagrada, não são permitidos certos hashtags considerados disrtuptivos ou podeíamos dizer, profanos.
Mas o mais interessante foi quando a pessoa que filmava a cena resolveu intervir na discussão. O polícia fez uma pausa e pediu “licença, que eu estou falando com uma pessoa só”. Claro que u ns dias depois apareceu um grupo, cada um com uma letra na camisa de forma a que a mensagem fosse de um grupo e não de uma pessoa só. E essa imagem está também na rede agrupada no hashtag. Ao contrárion do que vamos sendo habituados por esta noividade que são as redes sociais, a participação política só tem força se for colectiva. A primeira estratégia do poder que para a calar é isolar e lidar com uma pessoa de cada vez. Ou com muitas ao mesmo tempo desde que não se associem. E aí é que esta normalização da participação individualizada na rede e a desconfiança em relação a grupos políticos, em especial com propostas radicais, se tornam ingredientes básicos de uma receita perigosa para a democracia.
#terrorismo
No Brasil, a x meses dos olimpicos … operação hashtag
Há 2 anos atrás na véspera da final do campeonato do mundo, 23 ativistas foram mandados prender por suspeita de planearem ações violentas. No grupo havia alguns ativistas com percursos associados aos blocos anarquistas que usaram meios mais considerados violentos. De qualquer forma, nos casos mais extremos estes meios eram geralmente de resposta à violência da policia nas manifestações de 2013. Entre os objetos considerados perigosos encontravam-se escudos (usados para proteção contra a polícia) e rojões (um tipo de fogo de artifício usado por vezes em manifestações. Isto era a parte violenta. Uma grande parte dos detidos eram simplesmente militantes de esquerda sem qualquer ligação a violência. Alguns destes jovens (alguns ainda hoje sob medidas de coação), foram posteriormente acusados com base em comentários feitos entre amigos num bar.
Para alem de ser uma ação preventiva antes de um grande evento desportivo, o paralelo entre a o hashtag do mês passado, e a operação de 2014 é que a de então foi levada a cabo pela divisão de repressão do crime informático. É difícil perceber qual a lógica, mas é possível sugerir que há uma mudança no trabalho policial de investigação, na perceção que temos da violência e da forma como são acusadas as pessoas que, por uma lado é completamente nova, mas por outra abra um novo campo para o desenvolvimento de acoes de repressão arbitrárias e autoritárias da parte do estado. O detetive de lupa procurando pistas deixadas pelo criminoso no local do crime, é aos poucos substituído pelo polícia sentado em frente ao computador vasculhando as redes sociais em busca de perfis suspeitos e grupos de discussão fomentadores de ideologias consideradas perigosas. Assustadas pelos riscos da violência catalogada – permitimos que se ataque as ideologias que pensamos estarem na origem dessa violência em vez de nos preocuparmos com a violência em si.
#fundamentalismo islâmico
Em 2016 quando uma onda de atentados violentos assolou a Europa, todos estes caminhos de prevenção terão sido re-energisados. Como os perpetradores acabam geralmente mortos e não podem ser individualmente julgados pelos crimes que cometeram, o modo de administração de justiça confunde-se com a investigação preventiva de novos crimes. Assim a única forma que parece haver para punir os crimes e prevenir futuros atentados é atacar as ideias que justificam estes crimes. E como temos de os unir todos sob uma categoria fácil de entender, somos atraídos pelo hashtag.
Mas os hashtags podem ser múltiplos e contraditórios. Os hadhtags são estratégias de agregação com o objetivo de disseminar mensagens. Em muitos casos essas estratégias não têm qualquer preocupação de coerência ep portanto é difícil contra-argumentar com elas. Veja-se o caso da estratégia mediática de Donald Trump que tenta agregar vários grupos com mensagens contraditórias explorando a fragmentação das audiências gerada pelos novos media.
E por aí vêm as dificuldades do hashtag como forma de lidar com o crime. Daí vem os problemas da repressão do hashtag como forma de promover a manutençnao da ordem. É que o hashtag se torna um atalho explicativo, tanto quanto um amplificador de fenómenos minoritários. Focamos a atenção numa parte infinitamente menor dos riscos que nos ameaçam, porque tem um identificador que conseguimos associar-lhe, e predemos de vista as formas mais difusas de violência que são mais difíceis de explicar. Tudo isto claro resulta também de que o hashtag agrupa coisas que são diferentes sob um principio único. Assim, por exemplo, muitos dos fenómenos que são agrupados sob o hashag “terrorismo islâmico” desligam-se de outras características importantes que solicitariam outro tipo de intervenções ou pelo menos intervenções paralelas, geralmente mais complicadas de decidir e acionar.
#fazeralgumacoisa
Hashtags juntam, mas a urgência de agir, perante a catástofre sempre anunciada, leva-nos a procurar pela internet em busca de um indivíduo que possamos associar ao inimigo, para o irrritar, mostrar que está errado como se convencê-lo pudesse ser o princípio da transformação que queremos para podermos ser livres. Se metemos um hashtag será para garantir que somos lidos por quem precisa ser ilumindao pela nossa mensagem.
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