Wednesday, 18 May 2011

A força das palavras

Desde há coisa de um ano vimos instalar-se na imprensa internacional, a sigla “PIGS”. O acrónimo refere-se ao conjunto de países composto por Portugal, Irlanda (Itália entretanto conseguiu excluir-se) e Grécia. Em paralelo e com a mesma naturalidade a avaliação da credibilidade financeira de Portugal (e dos outros países chamados ‘PIGS’) aparece referida nos media como aproximando-se de “Junk”. As referencias a um conjunto de países como “porcos” e à sua credibilidade como “lixo” tornou-se parte rotineira do discurso aparentemente técnico dos observadores da economia europeia. Dizia Ricardo Araújo Pereira, membro do Governo Sombra da TSF, no seu estilo híbrido entre estudioso de semiótica e artista do Levanta-te e Ri, que há algo de politicamente relevante nas palavras que a imprensa usa para definir realidades económicas e sociais. Dizia ele, que estas denominações imprimidas diariamente na imprensa têm consequências reais e criticava com humor o facto de não aparecerem em contrapágina palavras como “chulos” ou “ladrões” para descrever agencias de rating ou agentes financeiros que especulam com as dívidas de países fragilizados. As decisões das instâncias políticas baseiam-se em ideias. Mesmo quando têm forte componente estatística, essas ideias baseiam-se em palavras. Os próprios números se baseiam em palavras. É impossível fazer análises estatísticas sem fazer opções, escolher e excluir. Desde a contagem mais básica até à operação mais complexa, ideias e conceitos operam na formulação dos problemas, selecção das operações, apresentação dos resultados. Crucialmente, as escolhas que os povos tomam em democracias são elas também baseadas em ideias, muitas delas circulando em palavras. Quero dizer, o julgamento de um cidadão eleitor finlandês ou português será forçosamente influenciado pelas palavras que circulam nos media e nos discursos dos políticos e até dos economistas. Chamar PIGS a um conjunto de países influencia a posição dos eleitores ingleses que têm de decidir se os seu governo faz bem ou mal em promover uma política de integração política económica e social dos diversos países da Europa. A denominação de Porcos a um conjunto de países não se estabelece só porque o acrónimo resulta em inglês. Parte do seu poder é auto-realizável e retro-alimentado pela realidade que empurra. Agrupar um conjunto de países sob uma denominação pejorativa reflete e impulsiona soluções formulaicas conjuntas e baseadas em avaliações que colocam os países em situação de inferioridade e sujeitos a estereótipos também eles pejorativos. Numa das passadas semanas, R.A.P. retomou a questão para se referir à escolha de palavras para a intervenção da troika. Era importante não lhe chamar “ajuda” porque de fato se tratava de um empréstimo a juros lucrativos, acompanhado de ingerência na política económica e no sacrifício dos cidadãos como contrapartidas. Resgate seria melhor embora de alguma forma refletisse também uma ideia de salvação de um sequestro colocando mais uma vez o papel filantrópico nas mãos dos financiadores. Ora, na língua inglesa, estas intervenções do FMI sobre países em dificuldades, assim como as intervenções dos Estados para salvar os Bancos insolventes denomina-se “Bail-out”. “Bail out” quer dizer caução, fiança, o dinheiro que o juiz determina necessário para que um prisioneiro possa esperar até à leitura da sentença em liberdade. Pois o que isto significa é que o contributo de 26 mil milhões euros do FMI para o pacote da Troika irá libertar Portugal temporariamente. Como qualquer fiança, este dinheiro vem com outras medidas de coação: ordens restritivas (imposições de política económica) e pulseira electrónica (monitoramento do cumprimento do acordo). Mas o milhão de dólares e disponibilidade para usar pulseira eletrónica oferecidos pelos seus advogados, não foram suficientes para permitir ao presidente do FMI aguardar julgamento em liberdade. A recente prisão de Dominique Strauss-Khan é irónica nesse aspecto. Tendo usado a palavra tantas vezes, com certeza DSK não esperava ter de ser ele a pedir um bail out. Mas acima de tudo o caso revela uma realidade chocante. O até agora favorito a líder da esquerda francesa, o homem que tem como modo de vida impor medidas de austeridade e sacrifício aos mais pobres dos países em dificuldade, pernoita habitualmente em hotéis de 2 000 euros por noite em Nova Iorque e alegadamente gosta de exercer o seu poder macho em relações fortuitas com mulheres em trabalho, sejam elas jornalistas ou empregadas de limpeza de hotel. Haverá alguma ligação entre estes comportamentos e a forma como a instituição a que preside aborda os problemas políticos do mundo. Ou será que é a ideologia que precisa de ser resgatada para haver politica e comunicação com princípios? Para começar seria interessante estarmos mais atentos ao peso das palavras. E sermos capazes de as usar de forma mais cuidadosa, mas também mais incisiva.

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