Graças à RTP on-line, vi ontem um pouco do ‘Prós e Contras’ sobre a crise. O responsável pelos patrões do Minho, um senhor com uma voz modulada e cheia de auto-confiança, entre repetidas queixas quanto à falta de confiança nos políticos, disse uma coisa acertada: Fala-se muito da crise que se iniciou há pouco mais de um ano atrás mas toda a gente parece esquecer que a crise em Portugal já dura há quinze anos. Ele diz que são 15, mas provavelmente são 50. Ou talvez 500. Ou talvez a historia da economia portuguesa seja, ao contrário da dos países que lideram os ciclos do capitalismo, uma história de permanente crise ponteada por janelas de oportunidade para sair dela. Essas janelas são abertas geralmente por períodos de entrada de riqueza de fora, como os fundos europeus nos anos oitenta ou os tesouros das colónias nos descobrimentos. Oportunidades invariavelmente desperdiçadas pelos poderes políticos e económicos sedentos de imitar as elites dos países hegemónicos.
Mas há outro tipo de oportunidades. As oportunidades oferecidas pela falência dos sistemas de cálculo, produção e valoração em que assenta a economia. Eis o que se nos oferece hoje. Temos neste momento uma janela aberta para repensar os princípios pelos quais organizamos a extracção, produção e distribuição de bens. E talvez, por não ser esta uma oportunidade oferecida por entrada extraordinária de riqueza, ela possa ser agarrada de uma forma séria e estruturada, para que possa produzir efeitos positivos no futuro do pais.
Por isso a palavra retoma talvez deva ser a primeira a desaparecer. É que o que nós queremos não é salvar algo que se tenha perdido. O que nós queremos é construir de novo, aprendendo com os erros.
Para isso será bom ouvir o que dizem aqueles que antes de ela acontecer, previram a crise do sistema financeiro mundial. George Soros e Nassim Taleb, por exemplo, fizeram fortuna nos mercados financeiros antes de avisarem para a insustentabilidade do sistema, escrevendo extensivamente sobre a deficiência dos instrumentos estatísticos e probabilísticos em que se basearam as aventuras abraçadas pelas grandes instituições financeiras. Um sistema onde se compram e vendem opções e futuros, onde se negoceiam acções para ganhar com a sua queda, onde os bancos emprestam mais do que o que têm, não vai ser salvo por Estados endividando-se para comprar os recursos tóxicos dos bancos falidos. É verdade que, como alguém disse sobre os marxistas, muita gente foi capaz de prever pelo menos 10 das últimas 5 crises económicas. Mas quando elas acontecem É sempre bom ir atrás e ver quem as antecipou. E neste caso falamos de pessoas que conhecem os mercados financeiros por dentro e por fora.
E o que sucede no sistema financeiro reflecte e é reflectido pela situação no sistema produtivo e distributivo. Quando se retira do planeta materiais e energia a um ritmo que não permite a sua renovação, alimentando um sistema onde consumidores e empresas são financiados a credito e produzem lixo que não tem onde ser depositado, é evidente que se está a pedir emprestado ao futuro o que se não pode pagar. E aqui também muita gente tem vindo a alertar para a necessidade de formas de desenvolvimento sustentado. Como por exemplo Herman Daly, o autor de 'Steady State Economics', onde defende uma economia que tende para um estado de equilíbrio, de crescimento zero (zero growth), de máxima produtividade sustentável.
Uma ideia que parece inconcebível em Portugal onde fomos convencidos de que o termo de comparação para o crescimento da economia não são os nossos limites estruturais mas a média da União Europeia. De tal forma nos impingiram esta ideia que se nos disserem que "a economia cresceu menos do que a média comunitária"(e não pode de facto nunca ser de outra forma) já sentimos que estamos a regredir. Então se nos vierem falar de crescimento zero, é caso para pensarmos que os nossos bebes vão parar de ganhar peso, as crianças portuguesas não passarão do metro e meio e os centrais portugueses não poderão nunca mais ganhar bolas de cabeça aos avançados alemães.
O que acontece é que, no meio de períodos de grande abundância, como o que vivemos até agora em grande parte do ocidente (será que foi notado em Portugal?), estas vozes são abafadas e as ideias que elas defendem desvalorizadas. Como o Velho do Restelo, a personagem de Camões que o sistema educativo forjado na ditadura transformou em vilão, mas que na verdade era porta voz de uma mensagem de sensatez no meio da ganância reinante.
A verdade é que a presente crise fez reviver teorias como a de Daly e estas podem hoje, mesmo em Inglaterra, ouvir-se discutidas seriamente nos meios de comunicação social. Por isso sinto que, apesar do sofrimento que possa trazer em especial para quem esta habituado a um determinado nível de vida, o período que vivemos é também altamente excitante pois oferece a possibilidade de pôr em causa dados adquiridos, trazer para o espaço público ideias mais arrojadas, reavivar discussões esquecidas, gerar novas propostas e projectos.
É tempo de quebrar ciclos viciosos. Lembro-me de uma campanha eleitoral, julgo que de reeleição da AD em 1980. A coligação de Sa Carneiro tinha um cartaz com um comboio num túnel, uma luz ao fundo e a legenda, "Sair da crise a todo o vapor". Uns dias depois o Partido Comunista, ou talvez um outro partido da oposição, não me recordo, saiu com um cartaz de resposta. Nele havia uma linha férrea em círculo fechado, um comboio de brincar, um túnel e a legenda, "Entrar e sair da crise a todo o vapor". O tempo agora é de fazer menos fumo e tentar mudar de linha.
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