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O
segundo resgate
e os electrocardiogramas instantâneos da bolsa e dos juros da dívida não
são a
notícia do momento. São 11.30 da manhã de Quarta
Feira e
ainda não sabemos o que é que os ministros do CDS vão fazer e quando se
vão
demitir. O Presidente também ainda não proferiu uma palavra. Ainda não
sabemos a posição do MNE em relação ao presidente da Bolívia estacionado em Viena. E a capa do Público na internet mostra gráficos ilustrando o alerta que os juros da
dívida
dispararam momentaneamente. Se tivéssemos um electrocardiograma
constantemente
ligado ao peito enquanto fazemos a nossa vida, iríamos assustar-nos
muitas
vezes. Os juros disparam não porque os investidores fogem mas porque
estão à
espera. Estes valores têm a ver com trocas especulativas não com valores
que
Portugal está realmente a pagar. É a coisa mais normal do mundo dentro
da
anormalidade que este governo provocou. Vamos resolver a nossa vida,
fazer dieta
e exercício e depois voltamos a fazer exames.
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As demissões do governo caem como gotas de
uma torneira mal fechada. O CDS reúne-se para decidir se rompe a coligação
enquanto o Primeiro Ministro está em Berlim numa cimeira Europeia. Há dois dias,
Gaspar deixou as finanças no meio da redefinição do orçamento de Estado. Ontem, Paulo Portas demitiu-se no dia em que atravessa provavelmente a
maior crise diplomática do seu ministério. O Presidente da Bolívia, Evo Morales
foi forçado a aterrar de emergência na Áustria depois de Portugal ter recusado o voo presidencial no seu espaço aéreo, devido à suspeita
de que transportava Edward Snowden. Também em Portugal estão a faltar
revelações sobre o que está por trás desta grande trapalhada. É provável que o
governo americano conheça os detalhes, se tiver interesse nisso. É importante o povo português sabê-los
também.
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Snowden denunciou
as escutas às delegações da União Europeia e da ONU e às comunicações privadas
de todos os cidadãos do mundo. Num tempo em que movemos voluntariamente as
fronteiras da privacidade através do facebook
e outras redes sociais, a espionagem ganhou um protagonismo nunca antes visto.
Em Portugal as notícias da associação do espião Silva Carvalho com o ministro
Relvas e a acusação de Cavaco de que o governo e Sócrates tinha escutas na
presidência da República tiveram enorme importância na criação do clima
politico que vivemos hoje. Parece ter chegada a hora da clarificação. Vivemos
num tempo de revelações. Não podemos esperar que a politica seja feita como até
aqui. Não podemos permitir o controle cínico de alguns sobre a informação, parte dela
provavelmente obtida através de meios ilícitos. É preciso mais expressão e
questionamento no espaço público e menos jogo de bastidores. Políticos da
oposição, jornalistas e todos nós teremos de adoptar uma postura mais intransigente
para não permitir que a irresponsabilidade de quem nos tem governado possa
passar despercebida e repetir-se eternamente.
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O CDS não existe.
PP demite-se sem dizer nada ao partido. O partido reúne-se para ir atrás em
bloco. Mas foi claramente apanhado de surpresa.
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O PSD nunca
existiu. Não é social democrata como se chama. É uma organização que se excita
com líderes e depois os rejeita. Para depois os reabilitar e rejeitar de novo. Cavaco,
Durão Barroso, Santana Lopes, Passos Coelho. Todos foram idolatrados. Todos
caíram em desgraça. Mas como a organização não quer aprender lições todos
podem, tal como Cavaco, regressar. Ouvi falar de Durão e Santana como pre-candidatos a Belém. Pensei que estava a delirar. Gostava que alguém me explicasse qual o
contributo deste partido para a democracia portuguesa que possa contrabalançar
o prejuízo de ter promovido estes líderes, para alem de Duarte Lima, Miguel
Relvas, Silva Carvalho, Vítor Garpar e os responsáveis pelos alegados crimes do
BPN.
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“Eu bem te avisei”
é uma expressão irritante. Mas parece-me que hoje, mais do que ir à procura das
vozes dos senadores que estiveram calados e coniventes e dos políticos que
ficaram na sombra à espera da sua vez, temos de virar-nos para quem nos avisou.
Quem viu provada a sua razão. Quem a respeito da relação com os credores, primeiro
falou no que era impensável e agora inevitável – a reestruturação. E quem a respeito desta coligação primeiro
percebeu que ela estava a destruir o país e que esperar que Paulo Portas
escolhesse o tempo da sua morte só piorava as coisas. Quem nunca deixou de o
dizer. São essas vozes que temos de escutar agora. Precisamos de aprender com
os erros passados e deixar de ter medo de fantasmas. Procuremos quem percebeu
primeiro.
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